Classificação de CV e PCC como terroristas é “tiro no pé” de Flávio Bolsonaro, diz professor

Flávio Bolsonaro e Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca nesta terça (26). Foto: Reprodução

Em entrevista ao UOL, o Professor Leonardo Trevisan, especialista em relações internacionais, avaliou o impacto da classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas e o comportamento de corporações estrangeiras no país, alertando para os possíveis desdobramentos eleitorais e de segurança nacional que o movimento do governo Trump pode acarretar.

Inicialmente, Trevisan destacou o rigor de conformidade legal ao qual as grandes empresas estrangeiras estão submetidas, minimizando a necessidade de novas interferências externas. “Qualquer multinacional americana que atue aqui no Brasil tem que obedecer à lei Sarbannes-Oxley e não pode cometer nenhum deslize legal nos Estados Unidos ou aqui. Elas são muito cautelosas com isso e tudo mais. Então, portanto, meios de proteção, eles já estão definidos há bastante tempo”, pontuou.

O ponto central da crítica do professor, no entanto, recaiu sobre a dimensão estratégica e a retórica de segurança. “Tem sim um aspecto militar nessa ação sobre o classificar essas organizações e eu venho insistindo sempre no mesmo ponto”, afirmou. Para ele, o tom adotado pela ala bolsonarista contraria preceitos básicos de sobrevivência política no cenário nacional. “Mesmo no aspecto militar, isso é um profundo tiro no pé da candidatura Flávio Bolsonaro”, completou Trevisan.

O especialista rechaçou a ideia de que as Forças Armadas brasileiras dariam respaldo a medidas que pudessem abrir brechas para intervenções externas. “Eu desafiaria que se convocasse, que se convidasse qualquer general, qualquer almirante ou qualquer brigadeiro que aceitasse qualquer risco à soberania brasileira implícito nessa designação”, provocou o professor, enfatizando a coesão institucional das Forças Armadas nesse tema.

De acordo com a análise de Trevisan, a governança e a mentalidade militar do país possuem pilares muito bem estabelecidos, independentemente de inclinações partidárias momentâneas. “Os militares brasileiros não aceitam isso dentro de qualquer das linhas políticas ou de favor que tenham entre eles. A lógica da soberania, da proteção da soberania nacional é absolutamente consolidada”, explicou.

O professor alertou ainda para o potencial de desgaste junto à opinião pública quando a população compreender a gravidade de discursos que relativizam a autonomia do país. “É tiro no pé. Quando o brasileiro conseguir entender o que é que isso significa, que isso vai significar que alguém pode vir se meter na casa da gente, isso não vai ter bom fim eleitoral. Isso é óbvio”, advertiu o analista político.

Para sustentar sua tese, Leonardo Trevisan recorreu ao histórico político recente do Brasil, lembrando que o eleitorado costuma reagir positivamente a discursos de autopreservação e identidade nacional. “Se nós aprendemos alguma coisa com as últimas eleições, desde o governo Sarney, é que posições nacionalistas no Brasil redundam em votos. Isso é muito sério”, argumentou.

Por fim, o acadêmico concluiu que a linha de atuação adotada pela campanha do parlamentar se choca com a tradição eleitoral majoritária do país, podendo gerar o efeito oposto ao desejado nas urnas. “Essa posição não me parece muito conveniente mesmo para a posição da candidatura Bolsonaro”, finalizou Trevisan.

 

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/classificacao-de-cv-e-pcc-como-terroristas-e-tiro-no-pe-de-flavio-bolsonaro-diz-professor/