Por Leonardo Sakamoto, no UOL
A poeira da Copa do Mundo de 2026 começa a baixar, e a principal lição que o Brasil leva para casa não tem nada a ver com o futebol jogado dentro das quatro linhas. O legado amargo deste Mundial é a dimensão do estrago provocado pelas casas de apostas, as famosas bets, na saúde pública e no bolso dos brasileiros.
Fomos humilhados. Não pela Noruega em campo, mas por um sistema que transforma vício, desespero e endividamento em lucro.
Durante a Copa, assistir a uma partida tornou-se um exercício de indignação diante da promiscuidade entre as transmissões e a enxurrada de publicidade das bets, nos programas ou nos intervalos. Locutores e comentaristas abandonaram qualquer pudor para atuar como animadores de cassino, induzindo espectadores a perder o suado dinheiro nas mesmas empresas que pagam seus salários. Um conflito de interesses imoral, sangrando o bolso dos trabalhadores ao vivo, em cores e com eterno replay. Comerciais de TVs não deixaram por menos e, usando rostos famosos, ajudaram a afogar brasileiros em dívidas.
Diante dessa superexposição, surgiu um princípio de reação. Parte da sociedade civil e da imprensa e, consequentemente, da política começou a pressionar por limites a essa máquina de moer gente. Transmissões tiveram que largar mão do descaramento e mudar. O governo federal ensaiou iniciativas, ainda tímidas, contra a publicidade das apostas. Prefeituras como a do Rio de Janeiro restringiram a propaganda dessas empresas no espaço urbano.
Não é possível dissociar essa movimentação da overdose de bets na Copa. E, ironicamente, talvez esse tenha sido o maior triunfo brasileiro no torneio.
Seria lindo, claro, ver o Brasil levantar a taça de campeão mundial em 2030, como vi e celebrei os títulos de 1994 e 2002. Mas será infinitamente mais bonito se o país conseguir proteger o seu povo. Isso exige medidas drásticas, como a proibição completa da publicidade de bets em rádios, TVs, portais, jornais, redes sociais e campeonatos de futebol — principalmente aquela feita por influenciadores digitais que enriquecem vendendo a ilusão do dinheiro fácil a quem mal consegue pagar a comida.
Não vejo, no curto prazo, viabilidade política para proibir totalmente o funcionamento das casas de apostas no Brasil. O poder econômico do lobby do setor no Congresso é grande demais. Mas passar a tratar as bets como tratamos o tabaco, banindo sua publicidade e alertando ostensivamente para os danos à saúde mental e financeira, já seria um golaço.
O maior obstáculo é que, como repito neste espaço feito um papagaio com cãibra, parte da política nacional estabeleceu uma relação para lá de promíscua com os donos dessas empresas. Há deputados e senadores pegando carona nos jatinhos e nas contas bancárias dos donos das casas de apostas. Como esperar uma regulação dura de quem viaja no luxo financiado pelo dinheiro perdido por trabalhadores endividados?
Ao mesmo tempo, parcelas consideráveis da economia e da mídia tornaram-se dependentes (para não dizer viciadas) na grana injetada pelas bets. Para proteger esse fluxo de caixa, recorrem a malabarismos retóricos patéticos em nome do “livre mercado”, da “liberdade individual”, da “saudável separação entre área comercial e redação”.
Convenhamos: se essa lógica fosse levada a sério, poderíamos liberar anúncios de crack e cocaína nos intervalos dos telejornais. Aliás, para comprar uma pedra, ainda é preciso enfrentar o risco de uma biqueira. Para apostar, basta um celular, um clique e o conforto do sofá.
O vício que destrói famílias não se torna menos grave porque veste terno, patrocina o time do coração e paga imposto. Já passou da hora de o Brasil parar de apostar o próprio futuro contra a banca. Porque a banca sempre ganha. E quem paga a conta, como sempre, é o andar de baixo.
!function(f,b,e,v,n,t,s)
{if(f.fbq)return;n=f.fbq=function(){n.callMethod?
n.callMethod.apply(n,arguments):n.queue.push(arguments)};
if(!f._fbq)f._fbq=n;n.push=n;n.loaded=!0;n.version=’2.0′;
n.queue=[];t=b.createElement(e);t.async=!0;
t.src=v;s=b.getElementsByTagName(e)[0];
s.parentNode.insertBefore(t,s)}(window, document,’script’,
‘https://connect.facebook.net/en_US/fbevents.js’);
fbq(‘init’, ‘301448060382165’);
fbq(‘track’, ‘PageView’);
Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/copa-expos-como-o-brasil-esta-sendo-humilhado-pelas-bets/

