O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, convidou ministros e autoridades de mais de 60 países para uma reunião na próxima semana destinada a discutir o que o governo Donald Trump classifica como uma crescente ameaça: o “ressurgimento do terrorismo transnacional de extrema esquerda”.
A iniciativa, revelada pelo Washington Post, provocou desconforto dentro do próprio governo americano, entre aliados europeus e especialistas em contraterrorismo.
Segundo documentos obtidos pelo jornal, o encontro pretende ampliar a cooperação internacional em inteligência e aplicação da lei contra grupos que Washington considera responsáveis por uma nova onda de violência política organizada.
No entanto, funcionários do governo americano ouvidos sob condição de anonimato afirmam que há preocupação de que a estratégia seja usada para ampliar o uso de instrumentos antiterrorismo contra ativistas de esquerda nos próprios Estados Unidos.
Governo avalia enquadrar antifa como organização terrorista
De acordo com a reportagem, o principal assessor de contraterrorismo da Casa Branca, Sebastian Gorka, discutiu com integrantes do governo a possibilidade de usar a classificação de organizações terroristas estrangeiras para justificar investigações contra pessoas ligadas ao movimento antifa.
Embora o antifa seja um movimento descentralizado, sem liderança ou estrutura formal, Gorka avalia que supostas conexões internacionais poderiam abrir caminho para o uso de ferramentas mais amplas de investigação, incluindo monitoramento e vigilância.
“Uma ligação com organizações terroristas estrangeiras permite acesso a determinados instrumentos investigativos”, afirmou um funcionário da área de contraterrorismo ao jornal.
Gorka não respondeu aos pedidos de comentário.
Departamento de Estado defende iniciativa
O porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, afirmou que o encontro foi organizado porque o terrorismo de extrema esquerda representa “uma ameaça antiga que ressurge com fortes conexões transnacionais”.
Segundo ele, o governo considera que o problema foi negligenciado durante anos e que a cooperação internacional permitirá fortalecer medidas de segurança tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos.
Apesar do discurso oficial, integrantes do próprio governo demonstraram preocupação.
Segundo autoridades ouvidas pelo Washington Post, há receio de que o precedente permita que futuros governos utilizem as mesmas ferramentas contra movimentos conservadores.
Um funcionário resumiu a preocupação: “Você cria um precedente para que um eventual governo de Gavin Newsom utilize esses mesmos poderes contra conservadores.”
As divergências também alcançaram o Departamento de Justiça e o gabinete jurídico da Casa Branca. Segundo a reportagem, alguns funcionários decidiram não participar da reunião marcada para 16 de julho.
A Casa Branca rebateu as críticas, afirmando que elas não refletem a posição predominante do governo e acusou administrações democratas de terem usado instrumentos de segurança nacional contra adversários políticos.
Stephen Miller apoia medida
Outro integrante influente do governo, o vice-chefe de gabinete Stephen Miller, também defende uma postura mais dura contra grupos de esquerda.
Durante uma reunião na Casa Branca, no ano passado, Miller declarou que existiriam “extensas conexões internacionais” envolvendo o antifa e afirmou considerar válida sua classificação como organização terrorista estrangeira.
Especialistas em terrorismo afirmam que a proposta enfrenta obstáculos jurídicos significativos.
Jason Blazakis, que durante uma década comandou o processo de designação de organizações terroristas no Departamento de Estado, lembra que a legislação americana exige que o grupo seja efetivamente estrangeiro.
“Se possui presença doméstica significativa, não pode receber essa classificação”, afirmou.
Aliados europeus rejeitam avaliação americana
A proposta também foi recebida com ceticismo por diversos governos europeus.
Diplomatas afirmaram ao Washington Post que muitos sequer entendem por que foram convidados.
“Não temos antifa”, afirmou um diplomata europeu.

Outro disse não enxergar qualquer motivo para participar do encontro.
Autoridades de diferentes países também destacaram que suas agências de segurança não tratam a extrema esquerda como prioridade no combate ao terrorismo.
A lista de convidados inclui praticamente todos os países europeus, grandes nações latino-americanas e países asiáticos como Índia, Indonésia e Singapura.
Reuniões anteriores fracassaram
Segundo a reportagem, o Departamento de Estado já vinha tentando convencer aliados a adotar essa visão.
Em maio, promoveu uma reunião em Haia sobre terrorismo de extrema esquerda, mas autoridades holandesas recusaram sediar oficialmente o encontro, que acabou ocorrendo na embaixada americana.
Os participantes, segundo pessoas presentes, responderam basicamente que não compartilhavam da avaliação dos Estados Unidos.
Em junho, outra conferência organizada no Instituto da Paz dos Estados Unidos também teve baixa adesão e pouco impacto.
No mesmo mês, Washington enviou mensagens a mais de 20 embaixadas americanas solicitando informações sobre grupos extremistas de esquerda. Embora vários países tenham respondido, nenhum confirmou concordar com o diagnóstico apresentado pela administração Trump.
Designações geram críticas
Em novembro, o Departamento de Estado classificou quatro grupos europeus como organizações terroristas estrangeiras, incluindo o grupo alemão Antifa Ost.
A decisão foi recebida com ceticismo por especialistas.
Blazakis afirmou que as organizações envolvidas cometeram atos de vandalismo e agressões, mas não possuem histórico de atentados com mortes.
As próprias autoridades alemãs minimizaram a ameaça, afirmando que a capacidade operacional do grupo havia diminuído significativamente após prisões e condenações de seus principais integrantes.
Também na Holanda, o governo rejeitou um pedido parlamentar para classificar o antifa como organização terrorista, alegando inexistência de estrutura organizada que justificasse essa medida.
Especialistas acusam politização do contraterrorismo

Analistas afirmam que o governo Trump está superestimando a ameaça representada pela extrema esquerda enquanto reduz a atenção dedicada ao extremismo de direita.
Colin P. Clarke, diretor do Soufan Center e especialista em terrorismo, classificou a estratégia como uma politização da inteligência.
“Isso significa fazer política partidária com o contraterrorismo e concentrar esforços apenas em uma pequena parcela da ameaça real.”
Bruce Hoffman, pesquisador do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos, também afirmou que o extremismo de esquerda não figura entre os principais riscos atuais.
“Precisamos identificar ameaças de forma objetiva, e não seletiva por razões políticas”, disse.
Segundo Hoffman, embora episódios de violência política tenham aumentado nos Estados Unidos, o extremismo violento de esquerda continua sendo menos letal do que outras formas de terrorismo registradas no país.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/eua-convocam-mais-de-60-paises-reuniao-terrorismo-extrema-esquerda/

