Ex-sócio de Flávio Bolsonaro expõe crimes, traições e lobby com Kassio

Flávio e Fernanda Bolsonaro. Foto: reprodução

Uma reportagem do PlatôBR reúne mensagens, áudios, notas fiscais, documentos e relatos atribuídos a Alexandre Ferreira Dias Santini, ex-sócio e ex-amigo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e apresenta denúncias envolvendo o candidato à Presidência. O material cita festas com garotas de programa custeadas com dinheiro de origem suspeita, despesas e presentes pagos por terceiros, desdobramentos das rachadinhas e alegada intermediação de interesses privados junto ao gabinete do ministro Kassio Nunes Marques, do STF.

Santini foi sócio de Flávio na Bolsotini Chocolates e Café Ltda., franquia da Kopenhagen que funcionou na Barra da Tijuca. A loja entrou na investigação das rachadinhas do período em que Flávio era deputado estadual no Rio. Segundo o Ministério Público fluminense, o estabelecimento teria integrado uma estrutura para lavar recursos de salários de funcionários do gabinete.

O caso foi posteriormente arquivado por decisões judiciais. Antes disso, o então presidente Jair Bolsonaro fez trocas na Polícia Federal a fim de emperrar as investigações. A estratégia foi admitida em uma reunião ministerial em 2019, quando ele disse que não esperaria “fuder” seus filhos.

A amizade entre os ex-sócios se rompeu em 2022, quando Santini passou a cobrar um “acerto de contas”. Em setembro de 2023, enviou notificação extrajudicial cobrando R$ 1,4 milhão e registrando que Flávio teria aportado R$ 200 mil em dinheiro vivo no negócio.

Segundo o PlatôBR, Santini guardou registros de encontros privados de Flávio com garotas de programa e mostrou parte do material a Fernanda Bolsonaro. Mensagens mostram o ex-sócio negociando uma nova “festinha” com uma agenciadora após um encontro no Grand Hyatt, no Rio.

“Fala bb, tudo bem? Eu estava viajando de férias e voltei hj. Vamos marcar outra festinha igual a do grand hyatt. Com os mesmos amigos meus… meu filho + João Pedro. Vc arruma as meninas?”, escreveu. Em outra mensagem, acrescentou: “Precisa ser tudo sigiloso. Pois nessa época de eleição tá Fodaaaa”.

Conversas de Santini com a “namoradinha” de Flávio Bolsonaro. Foto: reprodução

A reportagem afirma que essas festas teriam sido pagas com recursos de origem considerada suspeita. Santini teria administrado um caixa informal usado para despesas que Flávio não assumiria diretamente, gastos pessoais e investimentos em imóveis.

A revelação dos encontros provocou uma crise no casamento de Flávio. Em mensagem a Santini, o senador pediu que ele se afastasse de Fernanda e admitiu erros. “Me arrependi, de verdade, de muitas escolhas erradas que fiz na vida e não vou errar nunca mais com a minha família”, escreveu. Mais adiante, ordenou: “Vá embora de Brasília”.

O material também aponta despesas de Flávio bancadas por pessoas próximas durante o governo Bolsonaro. O advogado Alan Belaciano, citado como integrante de um grupo com trânsito junto ao então governo federal, teria pago mais de R$ 90 mil em equipamentos de academia para a casa que Flávio comprou em Brasília por R$ 5,9 milhões.

Quando as notas fiscais vieram a público, Flávio disse que “um amigo de longa data” havia comprado os aparelhos como “empréstimo pessoal”, que estaria sendo pago. Sobre Santini, afirmou: “Ele tem mandado uns recados esquisitos para mim. Já me pediu dinheiro e eu não dei. Não quero dar linha para maluco. É um ex-sócio e ex-amigo”. Depois, classificou as acusações como “infundadas”.

Segundo a apuração, os pagamentos de terceiros iam além dos aparelhos. Amigos teriam arcado com reparos na residência, Santini teria comprado uma televisão de 75 polegadas para o senador e também pago mensalidades de uma academia de luxo frequentada por Flávio e Fernanda.

Mensagem de Flávio Bolsonaro a Santini. Foto: reprodução

Outro item citado é um Rolex Submariner Date. Uma nota fiscal obtida pelo PlatôBR mostra que Belaciano comprou o relógio em fevereiro de 2022 por R$ 305 mil. Mensagens preservadas por Santini indicariam que, embora a compra estivesse no nome do advogado, a peça seria destinada a Flávio.

A reportagem afirma ainda que pessoas próximas ao senador atuavam na intermediação de interesses privados em Brasília. Belaciano e outros amigos teriam usado uma casa no Lago Sul como ponto de encontro com interessados em resolver pendências na máquina federal. Flávio frequentaria o local. O grupo também teria mantido contato com empresários ligados à negociação da vacina Covaxin com o Ministério da Saúde, contrato depois cancelado sob suspeitas de irregularidades.

Outro núcleo envolve Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio e personagem central das rachadinhas. Áudios divulgados anteriormente mostram Queiroz recorrendo a Santini para pedir dinheiro ou transmitir cobranças ao senador.

“Tô passando uma dificuldade muito grande, e eu tô precisando de um dinheiro, tá? Natal chegando aqui… Tô com problema financeiro mesmo, irmão. (…) Não é com migalhas que me dão aí de vez em quando que resolve a minha vida, não, cara”, disse Queiroz em uma gravação.

Já rompido com Flávio, Santini encaminhou recados de Queiroz e escreveu: “Essa PICA é do Flávio, e ele deveria resolver. O Flávio precisa aprender a não abandonar quem sempre esteve ao lado dele, uma hora isso vai trazer problemas a ele”. Em outra conversa gravada, afirmou: “Se eu quiser, eu ponho o Flávio na cadeia. Com o que tenho na mão, ele vai preso. Sei tudo da vida dele”.

Os arquivos também trazem registros da época da chocolateria. Em e-mails, Flávio, então deputado estadual, aparece negociando uma venda de cerca de R$ 50 mil em chocolates para uma associação de funcionários do Tribunal de Contas do Rio. “Consigo o desconto de 7,5% e também te dou as sacolas de presente”, escreveu, informando que o pagamento poderia ocorrer por “transferência bancária, cartão, cheque ou cash”.

A denúncia de maior impacto institucional envolve Kassio Nunes Marques, do STF. No fim de 2023, Santini enviou uma mensagem dizendo saber que Flávio teria tratado diretamente com o ministro sobre interesses de um cliente com processo em seu gabinete. O caso seria conduzido por Belaciano e teria envolvido até um jantar com participação do chefe de gabinete do magistrado.

“Vou te passar apenas uma única informação que considero importante para vc. Vc falou diretamente com o Kassio Nunes e intermediou um cliente em um processo para tratarem disso. Vc é maluco ou inconsequente! Brasília não tem muros e seu amiguinho está sendo observado…”, escreveu Santini.

Após essa mensagem, Flávio aceitou encontrá-lo: “Terça às 15:00 no meu gabinete ok”. O PlatôBR afirma que não se sabe o que foi acertado, mas, pouco depois, Santini avisou que a disputa tinha terminado. “Assunto está encerrado”, escreveu.

Atualmente, Santini voltou a apoiar Flávio publicamente.

Conversa entre Santini e Flávio sobre Kássio Nunes Marques. Foto: reprodução

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/ex-socio-de-flavio-bolsonaro-expoe-crimes-traicoes-e-lobby-com-kassio/