Existe uma ironia na indústria de software que poucos comentam em voz alta: nunca tivemos tantas ferramentas para acelerar o desenvolvimento e, ainda assim, grandes empresas continuam levando meses para transformar uma ideia em produto. A tecnologia mudou em uma velocidade que os processos não acompanharam, e o custo dessa defasagem começa a aparecer em números concretos.
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Criado nos anos 1990 para organizar a comunicação e reduzir os custos de ajustes em ciclos longos, o Scrum deu previsibilidade ao desenvolvimento de software. Hoje, porém, a inteligência artificial e a automação transformaram a dinâmica da execução. Estruturas como sprints e retrospectivas começam a ser questionadas — não por ineficácia, mas porque a velocidade da tecnologia já ultrapassou o ritmo do trabalho essencialmente humano.
O teto da produtividade individual
A primeira onda da IA na engenharia de software aconteceu dentro da tela do desenvolvedor: ferramentas que sugeriam linhas de código passaram a escrever funções inteiras, criar testes e investigar erros de forma autônoma. Um estudo do GitHub com a Microsoft Research mostrou que desenvolvedores completaram tarefas 55,8% mais rápido usando o Copilot. Já o Stack Overflow Developer Survey aponta que 84% dos desenvolvedores usam ou planejam usar ferramentas de IA na rotina de trabalho.
Mas existe um limite estrutural para acelerar uma única etapa de um processo que continua lento nas demais. Imagine uma fábrica na qual uma máquina ficou dez vezes mais rápida, mas continua esperando autorização de três departamentos antes de iniciar cada operação. É o que acontece no software corporativo: o gargalo migrou da escrita do código para as fronteiras entre as etapas, da interpretação de uma demanda à aprovação de uma arquitetura, da revisão aos testes, e principalmente ao tempo necessário para transformar uma decisão de negócio em software funcionando.
Um relatório da McKinsey de novembro de 2025 reforça essa leitura: mais de 90% das equipes pesquisadas já usam IA e economizam em média seis horas por semana, mas o impacto no tempo total de entrega permanece modesto. A próxima fronteira não é aumentar a produtividade do desenvolvedor, mas a velocidade do sistema inteiro.
De ferramenta para arquitetura
É aqui que a conversa muda de patamar. A IA deixa de ser uma questão de escolher ferramentas e passa a exigir uma reorganização de como o trabalho de engenharia é estruturado dentro da empresa. Já é viável imaginar uma cadeia na qual diferentes agentes atuem em etapas distintas: um interpreta uma demanda de negócio, outro pesquisa o código existente, um terceiro propõe uma implementação, e outros ainda escrevem testes, revisam vulnerabilidades e verificam padrões arquiteturais. O ser humano continua no processo, mas sua função muda de executor para definidor de contexto e supervisor de decisões.
Surge um novo desafio: não basta adotar bons modelos de IA, é preciso definir como os agentes atuam, quais sistemas e informações podem acessar, que regras devem seguir e quais mecanismos garantem controle e rastreabilidade. A Gartner projeta que 40% das aplicações corporativas terão agentes de IA integrados até o final de 2026, ante menos de 5% em 2025. Ao mesmo tempo, apenas 15% dos líderes de TI pesquisados pela consultoria afirmam estar pilotando ou implementando agentes totalmente autônomos. A distância entre pressão de adoção e maturidade preparatória é enorme.
O risco de construir em silos
Fica a pergunta: quem vai controlar essa nova infraestrutura? O mercado está em uma corrida para transformar ferramentas de IA em plataformas completas de desenvolvimento. Confundir uma ferramenta de alto desempenho com uma arquitetura de longo prazo é um erro que se paga caro em ciclos de tecnologia curtos. A ferramenta que lidera hoje pode ser superada em meses, e construir toda a operação sobre uma única solução proprietária significa terceirizar parte da arquitetura de inovação para o roadmap de um fornecedor.
A alternativa é uma camada de orquestração capaz de conectar diferentes modelos e ferramentas, de forma que a inteligência possa mudar sem que a empresa precise reconstruir sua fábrica de software. Essa lógica explica por que padrões abertos ganham relevância: a vantagem competitiva não está em escolher o melhor modelo de hoje, mas em construir uma arquitetura flexível capaz de incorporar novas tecnologias amanhã sem interromper a operação.
O que acontece com o Scrum?
Se a execução pode acontecer continuamente, com agentes em paralelo e humanos supervisionando decisões de maior impacto, a ideia de concentrar o trabalho em ciclos artificiais de duas semanas começa a perder parte de sua lógica. Frameworks ágeis não desaparecerão da noite para o dia, mas sua função precisa ser reavaliada com urgência.
O verdadeiro ativo passa a ser a especificação. Quando uma máquina executa rapidamente aquilo que foi pedido, a qualidade do pedido se torna decisiva, e uma especificação ruim apenas produz software ruim em uma velocidade muito maior. É por isso que conceitos como Spec-Driven Development ganham relevância, já que a especificação deixa de ser documentação produzida antes do desenvolvimento e passa a funcionar como um contrato entre humanos e agentes, onde ficam as regras de negócio, os critérios de aceitação e as restrições técnicas.
Isso também muda a definição de produtividade. Durante décadas, o principal indicador de capacidade de uma equipe esteve ligado à quantidade de trabalho transformada em código. Esse indicador perde força quando máquinas passam a escrever uma parcela crescente desse código. O profissional mais valioso não será aquele que escreve mais linhas por dia, mas aquele capaz de transformar uma necessidade de negócio em uma especificação clara, supervisionar agentes, identificar riscos e decidir quando não construir alguma coisa.
Sempre nos perguntávamos quanto cada desenvolvedor conseguia entregar, agora a pergunta relevante daqui para frente é quanto uma organização consegue transformar uma decisão de negócio em software funcionando, com segurança e qualidade. Uma empresa pode ter os melhores copilotos do mercado e continuar lenta se suas decisões precisarem passar por dezenas de aprovações. Da mesma forma, uma organização com menos desenvolvedores pode entregar mais se tiver uma arquitetura capaz de combinar conhecimento, especificações, agentes e supervisão humana.
A revolução da IA no desenvolvimento de software, portanto, talvez não seja sobre escrever código mais rápido. É sobre eliminar o trabalho que existe ao redor do código. O código está deixando de ser o gargalo. O processo que o envolve ainda é.
*Diego Paraizo é CEO da Amazing
Fonte: https://itforum.com.br/artigos/fim-burocracia-codigo-ia-engenharia-software/


