Presidente Lula, sabe quem Davi Alcolumbre e o centrão não conseguirão barrar ao STF? Uma mulher negra. Não por benevolência, nem por um súbito surto de consciência institucional, mas porque o custo político seria alto demais em ano eleitoral.
Em um país que jamais viu uma mulher negra ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, rejeitar um nome assim não passaria despercebido pela população. Sua indicação viria acompanhada de pressão, mobilização e manchetes. E dizer não a ela, seja no voto, seja pela negativa de analisar sua candidatura, seria um constrangimento público destruidor para quem insiste em manter as estruturas como estão.
Porque, pela primeira vez na história deste país, o grupo que carrega o Brasil nas costas estaria prestes a ocupar um espaço que sempre lhe foi negado.
A derrota de Jorge Messias no Senado, sob a batuta de articulações do presidente Alcolumbre, para além dos interesses dos envolvidos no Congresso Nacional, é também sintoma de escolhas políticas que priorizam lealdade e proximidade em detrimento de algo que deveria estar no centro da equação: representatividade. E o que digo não é oportunismo, uma vez que defendo isso há muito tempo.
Se fosse um nome imbatível do ponto de vista jurídico, político e intelectual, como era de Flávio Dino, o custo teria sido maior para barrar. Não se trata de desqualificar o nome de Messias, mas de reconhecer que ele não era forte o bastante para enfrentar o momento em que estamos.
Há um verdadeiro rosário de mulheres negras com notório saber jurídico, reputação sólida e reconhecimento entre seus pares, plenamente capazes de ocupar uma cadeira no STF. Mulheres que conhecem as entranhas do sistema, que enfrentaram o racismo estrutural na prática e que poderiam levar ao Supremo uma perspectiva que hoje simplesmente não existe ali. Afirmar que faltam opções diz muito sobre o círculo de certos homens brancos que só respeitam outros homens da mesma cor de pele.

Davi Alcolumbre queria indicar Rodrigo Pacheco, seu aliado, para a vaga no Supremo e ficou irritado quando Lula o ignorou. Não é apenas demonstração de poder: é ter alguém lá que ajude a proteger os parlamentares de ações como investigações por desvios de emendas parlamentares e escândalos como o do Master. Aliás, o presidente do Senado foi arrastado após o fundo de previdência dos servidores públicos do Amapá, administrado por um indicado seu, aparecer queimando dinheiro no banco. O próprio Messias perdeu pontos com Alcolumbre e o centrão ao se aproximar demais do ministro André Mendonça, relator do caso.
A negativa ao nome de Messias não é golpe, faz parte do jogo democrático, por mais que as razões envolvidas não tenham sido jurídicas ou técnicas, mas de bisonho interesse pessoal — no caso, proteção própria. Mas a suspeita de que Alcolumbre segure a vaga para o próximo presidente escolher já é um golpe que esvazia a prerrogativa do atual chefe do Executivo e transforma a cadeira em ficha de negociação.
Diante disso, Lula tem diante de si uma escolha que vai além da governabilidade imediata. Pode continuar operando dentro da lógica de indicar apenas pessoas próximas ou tensionar o sistema. Indicar uma mulher negra ao STF não seria apenas uma decisão simbólica, mas uma afirmação política de que representatividade importa, sim, e de que há limites para o jogo de poder.
Há uma dívida sendo acumulada com uma grande parte da sociedade. E dívida política, quando ignorada, cobra com juros.
Não precisa tratar Alcolumbre e o centrão como inimigos, até porque o governo precisa do Senado. Basta começar a receber juristas negras para conversas e indicar uma. Pode transformar o limão em limonada em pleno período eleitoral.
Se o Senado quiser barrar, que arque com o desgaste. Que explique ao país por que rejeita, mais uma vez, a chance de corrigir uma distorção histórica. Porque, em política, há momentos em que não escolher também é uma escolha. E essa, Lula já adiou demais.
Aqui você encontra a lista e os currículos de nove juristas negras que o “Movimento Mulheres Negras Decidem” enviou a Lula no ano passado visando a preencher a vaga deixada pelo ministro Barroso. Claro, há muitas outras.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/leonardo-sakamoto-derrota-pode-levar-lula-a-finalmente-indicar-uma-mulher-negra-ao-stf/

