Parte da esquerda retomou a bandeira “Congresso Inimigo do Povo” após duas derrotas do governo Lula no Legislativo: a rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal no Senado e a derrubada do veto presidencial ao PL da Dosimetria, que reduz penas de condenados por tentativa de golpe de Estado e pelos atos de 8 de janeiro. O mote foi puxado por parlamentares de PT e PSOL, ganhou força com Fernanda Melchionna (PSOL-RS) no plenário do Congresso e foi repetido por Erika Hilton (PSOL-SP) nesta sexta-feira (1º), no ato do Dia do Trabalhador em São Paulo.
A movimentação não trata a esquerda como bloco único. O que há é uma ofensiva de parte da esquerda parlamentar para recolocar a expressão no centro da disputa contra o atual Congresso, associando o Legislativo à proteção de golpistas, à derrota de pautas do governo Lula e à resistência ao fim da escala 6×1.
Como mostrou a Fórum, Melchionna expôs no plenário a articulação em torno do PL da Dosimetria e atacou o que chamou de acordão entre Flávio Bolsonaro e Davi Alcolumbre.
Melchionna puxa “Congresso Inimigo do Povo” no plenário
Na sessão do Congresso que derrubou o veto de Lula ao PL da Dosimetria, Melchionna usou a tribuna para defender mobilização popular contra a anistia aos golpistas e pelo fim da escala 6×1.
“Esse povo precisa se levantar — amanhã é 1º de maio, Dia do Trabalhador — para acabar com a escala 6 por 1 e para garantir que não haja anistia para golpista. Precisamos seguir a moral alta. E o povo precisa seguir a luta na rua”, afirmou Melchionna, segundo a transcrição oficial da Câmara.
Na sequência, a deputada cravou o mote que passou a circular entre parlamentares e militantes. “Esta é a nossa tarefa: denunciar o Congresso inimigo do povo, denunciar o acordão vergonhoso de vocês!”, disse.
Melchionna também levou a palavra de ordem ao X. Em uma das publicações, afirmou que o “Congresso inimigo do povo” atacava novamente em meio à movimentação para reduzir penas de golpistas.
https://x.com/fernandapsol/status/2048819709118746910
Em outra postagem, a deputada disse que o “Congresso Inimigo do Povo” defendia criminosos e convocou mobilização nas redes.
https://x.com/fernandapsol/status/2049276047405752522
Depois da derrubada do veto, Melchionna voltou ao tema e classificou a decisão como vergonhosa.
https://x.com/fernandapsol/status/2049922709425922534
Erika Hilton leva mote ao 1º de Maio em São Paulo
A fala mais forte desta sexta-feira veio de Erika Hilton no ato do 1º de Maio em São Paulo. A deputada ligou a crítica ao Congresso à pauta trabalhista e ao fim da escala 6×1.
“Povo desse Brasil que veio ocupar essa rua, que veio ocupar as portas desse Congresso que é, sim, inimigo do povo brasileiro, inimigo da classe trabalhadora, inimigo dos avanços sociais! Um Congresso que só quer pensar em benefício para si próprio ou para os bandidos que tentaram o golpe de Estado neste país”, afirmou Erika.
A deputada também atacou a derrubada do veto ao PL da Dosimetria. “O que o Congresso Nacional fez ontem foi dizer que vale tudo. Vale golpe, vale atentar contra o Estado Democrático de Direito, vale banalizar a Constituição”, disse.
Erika conectou a ofensiva contra o Congresso à defesa de uma nova composição parlamentar nas eleições. “Nós temos uma outra missão, que é refundar o Brasil e não dar ele para aquele Congresso inimigo do povo. Elegendo deputados e senadores que defendam os interesses da nossa sociedade”, declarou.
PT e PSOL ampliam ofensiva nas redes
O mote também foi usado por Lindbergh Farias (PT-RJ), que associou o “Congresso Inimigo do Povo” à tentativa de livrar Jair Bolsonaro e generais golpistas.
https://x.com/lindberghfarias/status/2049641651321123013
Rogério Correia (PT-MG) afirmou que a pressão popular já havia feito o “Congresso inimigo do povo” recuar na PEC da Bandidagem e convocou mobilização para o 1º de Maio.
https://x.com/RogerioCorreia_/status/2049918729811595622
Glauber Braga (PSOL-RJ) também usou a expressão ao criticar a derrubada do veto de Lula ao PL da Dosimetria.
https://x.com/Glauber_Braga/status/2049968755799884269
Sâmia Bomfim (PSOL-SP) afirmou que o “Congresso inimigo do povo” não concederá nada de bom grado e associou a derrota de Messias a uma aliança entre direita, Centrão e bolsonarismo.
https://x.com/samiabomfim/status/2049670952359788589
Talíria Petrone (PSOL-RJ) também entrou na ofensiva ao tratar da votação sobre os vetos de Lula e da anistia a Bolsonaro.
https://x.com/taliriapetrone/status/2049867584078524618
Duda Salabert (PDT-MG) publicou a frase de forma direta: “Congresso inimigo do Povo”.
https://x.com/DudaSalabert/status/2049933442196865319
Chico Alencar (PSOL-RJ) afirmou que a maioria do “Congresso inimigo do povo” votou para reduzir a pena de Bolsonaro e de aliados condenados por golpismo.
https://x.com/depchicoalencar/status/2049937993700397146
Uczai mira Senado após rejeição de Messias
A ofensiva também atingiu diretamente o Senado. Pedro Uczai (PT-SC), líder do PT na Câmara, chamou a Casa de “Senado inimigo do povo” após a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF.
https://x.com/uczai/status/2049650164365963526
Em discurso, Uczai disse que a rejeição de Messias não foi uma derrota apenas de Lula, mas do povo brasileiro e da democracia. A fala ampliou o uso do mote para além da votação da dosimetria e conectou o ataque ao Senado à queda da indicação presidencial para o Supremo.
Derrubada do veto deu novo combustível ao mote
O Congresso derrubou na quinta-feira (30) o veto de Lula ao PL da Dosimetria. Segundo a Câmara dos Deputados, o projeto reduz penas de pessoas condenadas pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 e pela tentativa de golpe de Estado.
Na Câmara, foram 318 votos contra o veto e 144 a favor. No Senado, 49 senadores votaram pela derrubada e 24 pela manutenção. Com o resultado, o texto segue para promulgação.
Para esse grupo de parlamentares, a votação consolidou a linha política que agora tentam popularizar: a de que o Congresso atua contra pautas de interesse popular e em favor de setores ligados ao bolsonarismo.
Escala 6×1 entra no centro da disputa
No ato em São Paulo, Erika Hilton fez da escala 6×1 o eixo social da crítica ao Congresso. A deputada afirmou que a discussão sobre a redução da jornada está atrasada e citou a PEC apresentada por seu mandato.
“Este debate já está atrasado. Muito mais do que atrasado, nós apresentamos a nossa PEC, mas antes da nossa PEC, tem um texto do senador Paulo Paim, que é desde 2015, que fala sobre essa matéria”, disse Erika.
A PEC 8/2025, apresentada por Erika Hilton e outros parlamentares, prevê a redução da jornada de trabalho para quatro dias por semana no Brasil. A CCJ aprovou admissibilidade de propostas que, na prática, acabam com a escala de seis dias de trabalho por um de descanso.
“O povo quer viver! O povo quer dignidade! O povo quer trabalhar para viver e não viver para trabalhar!”, concluiu Erika.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/esquerda-retoma-congresso-inimigo-povo-traicoes/

