O Banco Master realizou ao menos R$ 1,112 bilhão em operações nas quais registrava empréstimos a empresas ligadas ao investidor Nelson Tanure e, em até uma semana, repassava os créditos para fundos com beneficiários finais desconhecidos. Na maior parte dos casos, a cessão ocorria no mesmo dia do empréstimo.
Segundo o Metrópoles, as transações seguiam um padrão: o Master declarava ter emprestado dezenas de milhões de reais a uma empresa de Tanure, recebia valor equivalente de um fundo e dava a dívida como quitada diante do Banco Central. A obrigação, então, migrava para o fundo, fora da relação bancária direta que permitia aos órgãos de controle acompanhar o devedor original.
A Polícia Federal aponta que esse tipo de operação era usado por Daniel Vorcaro para drenar recursos do Banco Master para seu grupo. Investigadores suspeitam que Tanure fosse sócio oculto do banco, hipótese que ele sempre negou.
Créditos concedidos a Tanure e rapidamente revendidos constam em uma planilha juntada pelo liquidante do banco em processo judicial. No caso, o liquidante acusa Vorcaro de usar esse expediente para tirar dinheiro do Master e repassá-lo ao pai, Henrique Vorcaro. As assessorias de Vorcaro e Tanure foram procuradas e não responderam.
Operações começaram em 2022 e cresceram em 2024
A planilha registra operações bate-volta com empresas ligadas a Tanure desde 2022. Em 6 de maio daquele ano, o Master emprestou R$ 15,2 milhões à Gafisa e, no mesmo dia, cedeu o crédito para a Lermont Participações, veículo de investimentos de Tanure.
No fim de junho de 2022, o banco emprestou R$ 86 milhões à própria Lermont e vendeu os créditos, logo depois, para o fundo Mingard, criado para concentrar dívidas de Tanure. Ao todo, naquele ano, o Master registrou R$ 159 milhões em carteiras relativas a empréstimos tomados até uma semana antes por Gafisa, Milos Participações e Lormont.

A prática avançou em 2024, quando o Master registrou R$ 774 milhões em operações do tipo apenas com a Lormont. Desse total, R$ 463 milhões foram comprados no mesmo dia pelo Genicart, fundo FIDC administrado pela Reag e criado para adquirir aquelas dívidas. O fundo tinha um único cotista e informou, no primeiro relatório trimestral, alienação de R$ 62 milhões porque o crédito “possui uma baixa perspectiva de recuperação”.
Outra operação envolveu o fundo Yvrac, também administrado pela Reag. Em maio de 2025, ele comprou R$ 115 milhões em dívidas de três empresas de Tanure com o Master, entre elas a Lormont. Quatro meses depois, o Master repassou o fundo ao BRB como compensação por carteiras problemáticas vendidas antes pelo banco de Daniel Vorcaro.
Uma análise da área jurídica do BRB apontou que o Yvrac era, naquele momento, 100% composto por ações da Alliança Saúde, empresa na qual Tanure investia por meio da Lormont. Na prática, a sequência entre empréstimo do Master, compra da dívida pelo fundo e posterior repasse fez com que o banco passasse a ter exposição a ações ligadas a Tanure sem aparecer como beneficiário final. Atualmente, 10,9% das ações da companhia estão com o Yvrac.
No auge da crise financeira do Master, as operações passaram a gerar prejuízo ao banco. Em setembro de 2025, no mesmo dia em que emprestou R$ 64,8 milhões à Gafisa, o banco deu a dívida como quitada após receber R$ 43,7 milhões do Yvrac. Três dias depois, emprestou R$ 66,2 milhões à Sercomtel e cedeu o crédito por R$ 47,1 milhões.
Entre 5 e 25 de setembro de 2025, o Master emprestou R$ 179 milhões a empresas de Tanure em dez operações e vendeu os créditos no mesmo dia ao Yvrac, sempre com deságio. O prejuízo nessas transações chegou a R$ 41 milhões em um mês, período em que o banco buscava capital e liquidez.
Auditorias independentes também encontraram problemas em fundos que concentravam dívidas de Tanure. A RSM Brasil se absteve de emitir opinião sobre o Ravena FIDC em 2024 e 2025 porque não obteve evidências suficientes para avaliar o valor justo e a recuperabilidade dos ativos que formavam quase todo o patrimônio do fundo. Dos R$ 369 milhões em créditos de face, R$ 53 milhões foram quitados, conforme os documentos do próprio fundo.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/master-operacoes-11-bilhao-tanure-fundos/

