Sakamoto: Explosão em obra da Sabesp revela problema que pode estourar em SP

Região do Jaguaré após explosão – Reprodução/Band

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Quem defende que a privatização da Sabesp iria erguer uma nova Enel em termos de qualidade de serviço ganhou um argumento explosivo na tarde de hoje. Uma equipe da companhia de água e esgoto realizava uma obra no Jaguaré quando atingiu uma tubulação de gás. A explosão que ocorreu após o vazamento matou ao menos uma pessoa e deixou outras feridas, além de provocar incêndios e destruir casas e apartamentos. Um cenário de guerra na zona oeste da capital paulista.

Desde a privatização da Sabesp, trabalhadores vêm denunciando a redução no quadro de empregados com mais tempo de casa, por meio de programas de demissão voluntária e outros desligamentos, e sua substituição por mão de obra terceirizada sem o mesmo conhecimento técnico do sistema.

“É nítida a relação entre acidentes que envolvem trabalhadores e prejudicam a população e a dispensa de trabalhadores mais experientes junto com a terceirização indiscriminada e sem critério. Sem falar na qualidade da água”, explicou à coluna José Antônio Faggian, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema).

Dados do Sintaema apontam que 40% do quadro de trabalhadores diretos teria sido desligado pela Equatorial, a nova controladora, principalmente via PDVs (planos de demissão voluntária), e reposto com terceirizados ou novos empregados sem o mesmo conhecimento. Para a gestão de serviços essenciais, não basta que a força de trabalho seja numerosa, mas que ela se mostre capaz de resolver problemas sem colocar a si mesma, os outros e o fornecimento de água e a coleta de esgoto em risco.

A morte de hoje não é a primeira envolvendo a empresa desde a privatização. Em março deste ano, um reservatório da Sabesp que estava em construção em Mairiporã se rompeu, deixando um rastro de destruição no município. Um funcionário de uma empresa terceirizada morreu, outras pessoas ficaram feridas e dezenas, desalojadas.

Já em setembro do ano passado, uma mulher de 79 anos morreu após uma tubulação de grande porte sob responsabilidade da Sabesp cair sobre a casa dela em Mauá. O caso ocorreu durante obras do sistema de água do município feitas para a empresa.

Processo semelhante ocorreu com a Enel. O Sindicato dos Eletricitários de São Paulo aponta que a distribuidora de energia reduziu drasticamente o quadro de empregados diretos, perdendo memória técnica. O investimento na mão de obra terceirizada, que tem rotatividade e corpo menos qualificado para avaliar e atender os problemas, não deu conta do desafio.

Tal como a Sabesp, a Enel também fez programas de demissão voluntária, incentivou aposentadorias e demitiu corpo técnico mais antigo — que, normalmente, ganha mais.

Quase dois anos após ser privatizada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), a Sabesp vê o número de reclamações da população sobre a qualidade do serviço aumentar ao mesmo tempo em que controladores e acionistas celebram a alta do lucro.

Levantamento de Adriana Ferraz, no UOL, usando dados da própria Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo, aponta que a média mensal de queixas cresceu 70% entre janeiro e março deste ano em comparação a 2025, passando de 1.041 para 1.770. Na periferia da capital, a água tem sido cortada com mais frequência e chegado turva. Municípios têm aprovado CPIs para investigar as queixas da população.

Coincidentemente, a alta de reclamações ocorre no mesmo momento em que a empresa fez a alegria dos investidores ao anunciar um aumento nos seus ganhos. Na quinta-feira (7), a Sabesp divulgou um lucro líquido ajustado de R$ 1,5 bilhão entre janeiro e março de 2026 — um aumento de 32,3% em relação ao mesmo período de 2025.

Já o Ebitda ajustado da empresa — o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, medida que ignora os impactos financeiros e contábeis — cresceu 26% entre janeiro e março na comparação anual, registrando R$ 3,8 bilhões. O resultado seria um misto de ganhos de eficiência, demissão de funcionários e otimização de processos. Ou seja, o começo do ano foi bom para alguns e ruim para muitos.

Em novembro de 2023, publiquei aqui uma coluna com o título “Enel pisca para Sabesp e diz ‘eu sou você amanhã’ diante do caos em SP”, alertando para problemas na forma como são conduzidas a privatização e a gestão de serviços públicos essenciais de luz e água.

A Sabesp tem obras espalhadas por São Paulo. Que elas não se tornem uma bomba para o paulista.

 

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-explosao-em-obra-da-sabesp-revela-problema-que-pode-estourar-em-sp/