Sakamoto: Flávio Bolsonaro apela a Trump contra PCC e CV, mas poupa milícia e aliados

Flávio Bolsonaro e Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi às redes sociais ontem celebrar uma vitória pessoal: os Estados Unidos, sob a gestão de Donald Trump, passarão a classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Com a terceirização da soberania, o parlamentar sinaliza que, se eleito, vai ter bandeirão sim dos EUA na avenida Paulista para celebrar a Independência do Brasil, todo o 7 de setembro, tal como a multidão bolsonarista fez no ano passado.

A jogada de marketing é evidente: inflar o peito para a própria base eleitoral, agitar o pânico moral e vestir a fantasia de paladino da segurança pública, desviando do escândalo de seu BFF Daniel Vorcaro. Do ponto de vista prático, isso não ajuda o combate ao crime que demanda trabalho conjunto de União e estados, e muita inteligência. O senador só precisa torcer, claro, para Trump não impor sanções a algum banco na Faria Lima que tenha sido usado sem saber por alguma facção, criando problemas para empresas e pessoas por aqui que não têm nada a ver com isso. É… O mercado cria corvos que depois comem seus olhos.

O problema de posar de herói é quando o armário está abarrotado de esqueletos. Faltou a Flávio Bolsonaro contar aos norte-americanos (e, principalmente, explicar aos brasileiros) por que a sua fúria antiterro é tão cirurgicamente seletiva. Onde está o mesmo empenho e a mesma indignação, quando o assunto são as narcomilícias que aterrorizam e controlam boa parte do seu próprio estado, o Rio de Janeiro?

Curiosamente, o senador parece sofrer de uma miopia crônica quando o crime veste coturno, cobra “taxa de segurança”, domina a venda de gás e internet, grila terras e assassina oponentes políticos na Baixada Fluminense e na Zona Oeste carioca. Para o PCC e o CV, ele pede o martelo da lei antiterrorismo. Para as milícias fluminenses, entrega o silêncio ensurdecedor e complacente de quem olha para o outro lado. Quando se manifesta sobre o assunto, é apenas o mínimi para não se comprometer.

Não é difícil entender a raiz dessa leniência. Basta puxar a capivara política do gabinete de Flávio nos tempos em que era deputado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O autoproclamado algoz do crime é o mesmo que construiu carreira condecorando, com as mais altas honrarias do Legislativo fluminense, policiais envolvidos até o pescoço em milícias.

O caso mais repulsivo (e que o clã tenta apagar da memória nacional a todo custo) é o do ex-capitão do Bope e conhecido miliciano Adriano da Nóbrega. Ele não apenas foi homenageado com a Medalha Tiradentes por Flávio (após ser preso por acusação de homicídio de um guardador de carros que havia denunciado policiais corruptos), como teve a mãe e a ex-mulher empregadas no seu gabinete quando deputado — na época do notório esquema das “rachadinhas”. Tudo financiado com o dinheiro do contribuinte.

O miliciano Adriano da Nóbrega. Foto: Divulgação/Polícia Civil

As milícias, hoje transformadas em poderosas narcomilícias associadas ao mesmo tráfico que Flávio jura combater, expandiram seus tentáculos no Rio de Janeiro sob os discursos em defesa de “grupos de autodefesa” proferidos ao longo de anos pela sua família. Reportagem da Agência Pública, de 2019, mostrou, aliás, que o senador recebeu expressiva votação em Rio das Pedras, área onde a milícia controla a vida das pessoas.

A inclusão do PCC e do CV na lista de terroristas dos EUA é uma pauta bumerangue, que levanta riscos reais de sanções severas a bancos e empresas brasileiras devido à voracidade das regras financeiras de Washington e a instrumentalização geopolítica delas. Mas, do ponto de vista moral e político, a cruzada de Flávio é apenas um teatro.

É fácil cruzar o continente para pedir que um presidente estrangeiro enquadre os nossos bichos-papões, enquanto se protege os criminosos que controlam o curral eleitoral no próprio quintal. Bater de frente com facções rende palanque, mas combater o crime verdadeiramente organizado no Rio de Janeiro (que é maior nos palácios do que nas ruas) cria problemas com velhos e inconvenientes conhecidos.

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Por exemplo: a Polícia Federal indiciou o ex-presidente da Alerj, o deputado estadual Rodrigo Bacellar, por vazar informações sigilosas ao comando Vermelho. Ele foi apontado pela PF como líder do núcleo político de uma organização criminosa. Acabou tendo o mandato cassado, não pela assembleia, mas pelo Tribunal Superior Eleitoral e pelo Supremo Tribunal Federal.

Bacellar era aliado de Flávio e chegou a ter o apoio do clã para disputar o governo do Rio. Depois, quando os escândalos com o CV se tornaram públicos, o senador disse que “houve precipitação na escolha”. Na verdade, o erro do deputado foi ter sido descoberto.

Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj. Foto: Thiago Lontra/Alerj

E como esquecer que o Banco Central identificou fundos de investimento suspeitos de fazerem parte do esquema do Banco Master que também aparecem nas investigações de lavagem de dinheiro para o PCC, segundo cruzamento da Folha de S.Paulo. O Master, do seu “irmão” Daniel Vorcaro, a quem ele pediu R$ 134 milhões e jurou lealdade eterna com a já célebre declaração “estou e estarei contigo sempre”. O senador ressaltou que a grana do banqueiro não era pública. Pior, era privatizada pelo crime.

A seletividade de Flávio Bolsonaro não é descuido, mas método. Seu combate ao crime organizado termina exatamente onde começam as relações políticas, familiares e financeiras que tornam essa guerra inconveniente. O senador quer importar a mão pesada de Washington contra facções que rendem discurso, mas evita encarar as engrenagens locais que sustentaram carreiras, mandatos e alianças no Rio de Janeiro.

A pose de xerife desmorona quando se percebe que o alvo não é o crime organizado, mas apenas a parte dele que não frequenta o álbum de conhecidos. Para o PCC e o CV, terrorismo. Para milícias e ou mesmo aliados enrolados com facções, silêncio e relativização.

Flávio pede que Trump bata nos criminosos no Brasil. Mas, antes de terceirizar a soberania nacional e posar de salvador da pátria, deveria explicar por que sua coragem acaba sempre na porta dos amigos, dos financiadores e dos fantasmas que moram dentro do próprio gabinete.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-flavio-bolsonaro-apela-a-trump-contra-pcc-e-cv-mas-poupa-milicia-e-aliados/