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Atravessada pela maresia da infância em Ponta Negra e pela bagagem multicultural que carrega desde o Norte do país até as viagens pela América do Sul, a cantora e compositora Cami Santiz lança nesta quinta-feira 18 o single “Canto da Sereia”, primeira amostra do aguardado álbum de estreia, SALINA, previsto para o fim de outubro. A faixa apresenta o conceito de “bregadeira lo-fi”, sonoridade que mistura a pulsação popular nordestina a atmosferas experimentais.
Com estética solar e sensual, a música evoca a figura mítica da sereia como metáfora das paixões que seduzem e afogam. “Passei muitos réveillons em Ponta Negra, jogando flores no mar, imaginando Iemanjá recebendo meus pedidos, como uma sereia das águas. A figura da sereia representa também a sensualidade, o encantamento. Para mim, ela simboliza o amor: que pode fisgar como um anzol, mas também pode afogar”, afirmou a artista em entrevista ao AGORA RN.
Entre riffs de guitarra, batidas da bregadeira e um sutil tempero de reggae, “Canto da Sereia” é também um cartão de visita do universo poético de SALINA: um trabalho que bebe da cultura potiguar e da vivência afetiva de Cami para construir uma música romântica, pop e experimental. “Meu disco SALINA se inspira principalmente em três vertentes: o pop, o lo-fi e a bregadeira. Quis trazer essa sonoridade percussiva como forma de levar a cultura da região que vivo para outros lugares e ouvidos”, resumiu.
Confira a entrevista completa:
AGORA RN – O que “Canto da Sereia” representa dentro do universo sonoro e poético que você está construindo em SALINA?
Cami Santiz – Meu disco SALINA se inspira principalmente em três vertentes: o pop, o lo-fi e a bregadeira. Nasci no Norte do país, mas cresci em Natal e, depois, viajei como nômade pela América do Sul. Nessa jornada, percebi algo em comum entre os lugares por onde passei: a cultura de “paredão” como uma linguagem musical. Além disso, como muitos natalenses, cresci ouvindo a Banda Grafith, que moldou meu gosto por ritmos como a swingueira. Quis trazer essa sonoridade percussiva para algumas faixas do disco, especialmente a bregadeira, como forma de levar a cultura da região que vivo para outros lugares e ouvidos. Já o lo-fi traz uma atmosfera mais tranquila e experimental, que me lembra a sensação de estar nas dunas da praia de Búzios vendo o pôr do sol. Canto da Sereia é uma música que me transporta diretamente para o Nordeste, mesmo estando longe.
AGORA RN – Como surgiu a inspiração para trazer a figura da sereia como símbolo dessa faixa?
Cami Santiz – Cresci indo à praia de Ponta Negra, e lembro que era muito comum crianças fazerem tatuagens de henna. Um dia me encantei com o desenho de uma sereia e “tatuei” nas costas. Essa memória ficou comigo até a vida adulta e, de alguma forma, quis trazê-la para a letra da música. Passei muitos réveillons ali, jogando flores no mar, imaginando Iemanjá recebendo meus pedidos, como uma sereia das águas. A figura da sereia representa também a sensualidade, o encantamento. Para mim, ela simboliza o amor: que pode fisgar como um anzol, mas também pode afogar. E a canção fala exatamente sobre isso, uma mistura de amor e ilusão.
AGORA RN – O litoral de Natal e suas memórias pessoais estão muito presentes na música. O que significam para sua identidade artística?
Cami Santiz – Como venho das águas doces do Norte, mergulhar no mar de Natal foi uma experiência muito marcante. É impossível não trazer isso para minha música. Aqui, a gente gira em torno do mar: ele está no nosso prato, nos veraneios em meio ao carnaval, nos romances… É um elemento que se mistura à vida. O sal e o sol marcaram minha pele e minha arte de forma definitiva.
AGORA RN – Você cunhou o conceito de “bregadeira lo-fi”. Como definiria essa sonoridade para quem ainda não conhece?
Cami Santiz – É a mistura dos elementos percussivos nordestinos com os sons etéreos do lo-fi como as guitarras, riffs e teclas que usamos. O lo-fi geralmente é ouvido para relaxar, estudar… já a bregadeira é para dançar, se divertir. Juntando os dois, criamos um som com identidade nordestina, mas com uma pegada experimental. Isso só foi possível graças à expertise do meu produtor musical, VZL SWAMI (Ian Medeiros, Gracinha, Sourebel, Ardu), e à colaboração do DJ e produtor TINOC (Gracinha, Algovox), que somou com os sintetizadores da faixa. O reggae na faixa foi uma ideia do meu produtor musical, VZL SWAMI, que aos 13 anos já tocava em banda de reggae e hoje produz as músicas da banda potiguar Sourebel, com quem também escrevi meu primeiro feat. A proposta casou muito bem com a vibe litorânea do disco. O reggae combina perfeitamente com a atmosfera salgada e praiana de SALINA.
AGORA RN – O que podemos esperar do álbum em outubro?
Cami Santiz – O álbum vai trazer a bregadeira em algumas faixas, mas é uma oportunidade de mostrar meu lado mais pop. Na minha carreira, os shows vieram antes do disco. Foi uma lógica inversa da carreira de um artista autoral no geral, mas isto fez com que pudesse financiar o meu trabalho e produzir SALINA. Então me dediquei por quase 1 ano para lançar o disco. Dentro das limitações do homestudio, porém com muita vontade de mostrar meu mundo musical. Esse é também o primeiro trabalho mais pop do meu produtor VZL SWAMI, isso é bacana! Gosto de colaborar com artistas natalenses. As composições falam de amor, sol e sal… não tem como fugir, sou romântica. Além disso, estas são minhas primeiras composições. Tem uma música chamada ‘Frenesi’, em que cito a verticalização das praias de Natal; ‘Seus Olhos’ nasceu após a leitura de um texto de Nísia Floresta, e ‘Latina Bebê’ que bebe mais da fonte do trip hop, com participação de Ian Medeiros na Bateria. E, claro, tem muita sofrência também.
AGORA RN – Como as referências do Nordeste dialogam com elementos globais do pop?
Cami Santiz – Sou bem eclética. Escuto de Marina Sena, Rachel Reis e Simona (da Argentina), a Banda Grafith, MC RB KBLZ, Lucas Boquinha, Evoney Fernandes… Meu produtor também curte isso e tem referências mais puxadas para o Neosoul, Afrobeats, Synthpop e reggae. No estúdio, a gente disseca os ritmos, estuda as células que dão o groove ao que gostamos de ouvir, e buscamos timbres que unam o pop à bregadeira e aos ritmos mais populares. Como muita coisa é feita no computador, o som acaba sendo bastante eletrônico. As limitações estruturais que encontramos por sermos artistas independentes acabam se transmutando para uma estética própria, como acontece com muitos artistas de gêneros que também usam essa linguagem mais digital. Somado a isso, tem o fato do VZL SWAMI ser multi-instrumentista, então acaba acontecendo esse encontro do virtual com o orgânico.
AGORA RN – Você se sente parte de uma nova cena musical potiguar?
Cami Santiz – Com certeza. Fui muito acolhida pela cena independente de Natal, tanto por produtores culturais quanto pela imprensa local. Isso me fez sentir parte de um novo movimento. A contemporaneidade está presente nas minhas referências e no que escuto para poder produzir. Mas ainda estou no início da minha jornada e quero me aprofundar mais na minha ancestralidade. Por enquanto, deixo a música me conduzir. Estou engatinhando, tenho dois anos de carreira e muito a aprender. Viajei de carona de Natal até Montevidéu e depois subi até a Colômbia, passando pelo rio até Manaus, onde nasci. Aprendi espanhol e até arrisco compor nesse idioma. Na infância, meus tios escutavam muito calypso e brega. Já meu pai, por ser carioca, ouvia muito samba. Nos outros países, me conectei com a música urbana: o reggaeton colombiano, o rap chileno… Essas viagens me fizeram querer aprender um instrumento e cantar. Hoje, quando entro no estúdio, trago essa bagagem diversa. Durante as viagens, conheci muitos ‘músicos de rua’ e entendi o poder de conexão da música. Comecei a cantar entre caronas de caminhão, mas ainda era muito tímida e insegura. Voltando para Natal, senti coragem de correr atrás de outro sonho: ter uma banda. Viajar já estava riscado da lista; e percebi que o próximo passo era me expressar pela música e consegui. Estou sempre me desafiando.
AGORA RN – Que mensagem você espera transmitir com SALINA, além da música?
Cami Santiz – O nome do disco é uma referência ao RN ser o maior produtor de sal marinho do Brasil. E assim como o sal, acredito que a arte potiguar está na mesa do brasileiro, mesmo que, muitas vezes, isso passe despercebido. Percebo que a música nordestina ainda é muito associada apenas à Bahia, Recife, Fortaleza… Mas o Rio Grande do Norte também tem uma cena riquíssima. Fico feliz ao ver artistas como Juliana Linhares, Khrystal e Potyguara Bardo ganhando projeção nacional. Quero poder somar nas produções da música potiguar, à minha maneira.
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Fonte: https://agorarn.com.br/ultimas/cami-santiz-mistura-bregadeira-pop-e-lo-fi-em-musica-marcada-pela-maresia/


