Mulheres ampliam a força dos ventos no RN, com turmas formadas pelo Senai

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A imagem mais conhecida da energia eólica no Rio Grande do Norte é formada por torres, pás e aerogeradores distribuídos pelo litoral e pelo interior. Nos bastidores, porém, funciona uma cadeia que começa na avaliação dos ventos e passa por licenciamento, construção, transporte, operação, manutenção, tecnologia, finanças e relacionamento com as comunidades. É nesse mercado, ainda predominantemente masculino, que as mulheres encontram espaço para ampliar a participação profissional.

O Estado consolidou-se como um dos principais polos eólicos brasileiros. Dados do Sistema de Informações de Geração da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) colocam o território potiguar entre os líderes nacionais em capacidade instalada. O avanço envolve centenas de parques e milhares de aerogeradores em operação, construção ou planejamento.

A atividade é acompanhada pelo Ministério de Minas e Energia (MME), pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), responsável pelos estudos de expansão, e pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que coordena a geração e a transmissão no Sistema Interligado Nacional (SIN). No campo empresarial, a Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica) reúne mais de 120 companhias da cadeia.

O tamanho do mercado contrasta com a participação feminina. Estudo da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) aponta que as mulheres representam somente 21% da força de trabalho da energia eólica mundial e ocupam cerca de 8% das posições de alta liderança. Nas fontes renováveis em geral, a presença feminina chega a 32%.

A diferença mostra que o crescimento do setor não garante, por si só, igualdade no acesso às vagas. Barreiras começam na formação: cursos de eletrotécnica, mecânica, automação, engenharia elétrica e manutenção industrial ainda recebem menos mulheres. Somam-se exigências de experiência, jornadas em áreas remotas, falta de estruturas adequadas nos canteiros e a percepção de que determinadas atividades seriam masculinas.

As oportunidades, entretanto, vão além do trabalho em altura. Mulheres podem atuar como técnicas de operação, eletricistas, engenheiras, meteorologistas, oceanógrafas, programadoras, analistas ambientais, especialistas em geoprocessamento e profissionais de saúde e segurança ocupacional. Há vagas também em compras, logística, direito regulatório, administração, contabilidade, comunicação e gestão social.

A demanda deve permanecer com a expansão nacional. A ABEEólica estima que o Brasil poderá instalar 12,5 gigawatts de capacidade eólica adicional entre 2026 e 2030, movimento capaz de gerar demanda por aproximadamente 2 mil profissionais técnicos. O potencial inclui novos parques terrestres e a preparação para projetos no mar.

No Rio Grande do Norte, a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (Fiern) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial do Rio Grande do Norte (Senai-RN) tornaram-se referências na formação. O Centro de Tecnologias do Gás e Energias Renováveis (CTGAS-ER) oferece cursos voltados à operação, manutenção, segurança e tecnologias energéticas.

O Estado também abriga o Instituto Senai de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER), formado por profissionais de engenharia, meteorologia, oceanografia, geografia e tecnologia da informação. Seu trabalho abrange energia eólica, hidrogênio, sustentabilidade, economia azul e geointeligência, áreas que ampliam o campo de entrada para mulheres com diferentes formações.

Capacitação aproxima mulheres das turbinas

Um exemplo de inclusão foi implantado no Complexo Eólico Cajuína, na região de Lajes. A então AES Brasil, posteriormente incorporada pela Auren Energia, anunciou a formação de uma equipe feminina para a operação do empreendimento. A iniciativa foi acompanhada por uma especialização técnica desenvolvida com o Senai-RN.

O curso ofereceu inicialmente 60 vagas, mas a procura levou à ampliação para 76 participantes de 18 municípios. As alunas tinham formação em eletrotécnica, mecânica e segurança do trabalho. A experiência mostrou que a ausência de mulheres nos parques não está associada à falta de interesse, mas, muitas vezes, à escassez de processos seletivos e programas de qualificação direcionados.

Para aproveitar as novas vagas, a formação técnica é uma das portas mais rápidas. Cursos de eletrotécnica, eletromecânica, automação industrial, mecânica e segurança do trabalho permitem disputar funções de instalação, inspeção e manutenção. Certificações para trabalho em altura, primeiros socorros e resgate também são cobradas pelas empresas.

A qualificação superior abre outras frentes. Engenharias elétrica, mecânica, civil, ambiental, de produção e naval estão entre as formações procuradas. Meteorologia e ciência de dados são utilizadas na previsão dos ventos; biologia e oceanografia aparecem no licenciamento; direito e economia participam dos contratos, da regulação e do financiamento.

A entrada das mulheres exige ainda políticas empresariais de permanência. Equipamentos de proteção individual em tamanhos adequados, alojamentos separados, protocolos contra assédio, licença parental, transporte seguro e critérios transparentes de promoção ajudam a reduzir a evasão depois da contratação.

A inclusão pode alcançar também as moradoras das áreas dos parques. Serviços de alimentação, hospedagem, transporte, costura, manutenção e fornecimento de materiais permitem que pequenos negócios femininos ingressem na cadeia. Programas do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) podem auxiliar na formalização, gestão e participação em processos de contratação.

Offshore abre uma nova janela profissional para ‘mulheres eólicas’

A próxima fronteira está no mar. Estudo do Senai-RN calcula em 54,5 gigawatts o potencial eólico offshore potiguar considerando somente áreas tecnicamente aptas. O volume é várias vezes superior à capacidade atualmente instalada em terra, embora a exploração dependa de licenciamento, infraestrutura portuária, transmissão e contratação da energia.

O ISI-ER desenvolve uma planta-piloto offshore, apontada como a primeira do País a receber licença prévia do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O projeto envolve ainda a Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern) e pode transformar portos em bases de montagem, manutenção e apoio marítimo.

Nesse novo mercado, as vagas não ficarão restritas aos aerogeradores. Haverá demanda por profissionais de engenharia naval, mergulho, robótica, inspeção submarina, logística portuária, operação de embarcações, análise ambiental, meteorologia, oceanografia e segurança. O Senai-RN criou uma formação básica e uma pós-graduação em energia eólica offshore para antecipar essa necessidade.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) participa do financiamento da expansão renovável, enquanto a EPE avalia cenários de oferta e o MME conduz a política energética. No Estado, a Secretaria do Desenvolvimento Econômico, da Ciência, da Tecnologia e da Inovação (Sedec-RN) e o Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne) acompanham investimentos e projetos.

A transição para o mar oferece a possibilidade de evitar a repetição da desigualdade observada na geração terrestre. Para isso, escolas, empresas e governo precisam reservar às mulheres acesso à formação antes que as vagas sejam abertas. Nos bastidores da energia, a disputa começa bem antes de o primeiro aerogerador entrar em funcionamento.

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Fonte: https://agorarn.com.br/rn/mulheres-energia-eolica-rn-turmas-senai/