Professor José Osman assume Reitoria do IFS com foco em expansão, inclusão e gestão descentralizada

 

Eleito reitor do Instituto Federal de Sergipe (IFS) para o mandato 2026-2030, o professor doutor José Osman dos Santos assume, em outubro, o comando da instituição após conquistar a maior votação já registrada na história da Reitoria, com 49,80% dos votos no modelo ponderado — o equivalente a 64,24% dos votos válidos. Em entrevista ao portal AJN1, o novo reitor detalha as prioridades da gestão, aborda os desafios orçamentários e apresenta os planos de expansão do instituto, com foco na inclusão, permanência estudantil e desenvolvimento regional. A posse está prevista para o fim de outubro.

AJN1: Quem é o novo reitor do Instituto Federal de Sergipe?

José Osman dos Santos: Sou o professor doutor José Osman dos Santos. Ingressei no Instituto Federal de Sergipe ainda como estudante do curso técnico integrado, na antiga Escola Técnica Federal de Sergipe, em 1990, concluindo em 1993. Nesse período, conciliei os estudos com o trabalho como torneiro na pequena marcenaria do meu pai. Após a formação técnica, servi ao Exército no Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva (NPOR), turma de 1993, e, em seguida, atuei como supervisor de Cadastro Imobiliário na Prefeitura de Aracaju. Sou filho de João Cipó, marceneiro, e de Maria, dona de casa, ambos oriundos do interior de Sergipe. Cresci no bairro Santos Dumont, em Aracaju, o que reforçou meu compromisso com uma educação pública inclusiva e voltada à classe trabalhadora. Sou pai de Sarah, atualmente estudante de Engenharia Civil em uma instituição pública de Sergipe, e de Nikollas, pessoa com síndrome de Down, portanto sou pai atípico, e esposo de Adriana. Sou licenciado e mestre em Física pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), doutor em Tecnologia Nuclear pela Universidade de São Paulo (USP) — com estágio internacional na Universidade de Bonn, na Alemanha — e pós-doutor pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN/CNEN). Em 2024, expandi minha formação, graduando-me como tecnólogo em Ciência de Dados. Retornei ao IFS em 2007 como docente, lotado no Campus Lagarto do IFS, acumulando ampla experiência institucional como coordenador de curso, diretor-geral do Campus Lagarto (2014-2022) e pró-reitor de Pesquisa, Pós-Graduação e Extensão. Atuei nos cursos de Edificações, Eletromecânica e Redes de Computadores, todos de nível médio, e também nos cursos superiores de Automação Industrial, Engenharia Elétrica e Física no IFS. Atualmente, sou professor permanente do Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica (ProfEPT) e, como pesquisador, publiquei diversos trabalhos no campo da Arqueometria, Ciências Ambientais e Educação Profissional e Tecnológica, tendo orientado dezenas de TCCs e dissertações de mestrado, tanto no Programa de Ensino de Física da UFS quanto no Mestrado em Educação Profissional do IFS.

AJN1: Professor, o senhor já foi diretor do Campus Lagarto por dois mandatos e também pró-reitor. Como essa experiência, tanto no dia a dia do campus quanto na gestão geral, influenciou a sua visão sobre o que o IFS precisa hoje?

JOS: Essa trajetória me deu uma visão sistêmica e madura da nossa instituição. No Campus Lagarto, finalizamos nossa gestão tendo avanços significativos em termos de ampliação do número de profissionais da educação no campus, passando de 16 técnicos da educação para quase 60, e ampliando o quadro docente de 54 para mais de 90 docentes efetivos. Ao final da gestão, ampliamos em 1/3 o número de vagas dos cursos técnicos, verticalizamos todos os cursos do campus, deixando o Campus Lagarto com quatro cursos superiores (Engenharia Elétrica, Bacharelado em Sistemas de Informação, Licenciatura em Física e Arquitetura e Urbanismo), todos bem avaliados, e, em relação ao ensino médio, o Campus Lagarto, ao final da gestão, obteve o maior IDEB entre as escolas públicas do Estado de Sergipe e a maior média no ENEM entre as escolas públicas em Sergipe. No chão da escola e na Direção-Geral do Campus Lagarto, vivenciei diretamente os desafios enfrentados na ponta: a necessidade de apoiar os estudantes na permanência e no êxito e as demandas por infraestrutura local, deixando o Campus Lagarto com uma eficiência acadêmica superior à média nacional, de acordo com a Plataforma Nilo Peçanha, e mantendo em torno de 1.500 alunos matriculados naquela unidade de ensino. O maior destaque foi em relação ao processo de participação da comunidade na gestão, sendo finalista do Prêmio de Transparência Ativa da CGU. Por outro lado, a atuação como pró-reitor (PROPEX), membro do Conselho Superior e como substituto eventual da reitora, professora doutora Ruth Sales, me permitiu compreender o funcionamento macro da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica, liderando comitês estratégicos e articulando o ensino à pesquisa e à extensão em nível estadual. O IFS hoje precisa exatamente desse equilíbrio: uma gestão que conheça a realidade de cada campus, mas que saiba agir estrategicamente como uma rede integrada, unindo experiência administrativa à sensibilidade pedagógica e humana, bem como com a visão de que gestão é mediação e coordenação do esforço humano coletivo para seus fins, que é a transformação social pela educação profissional e tecnológica.

AJN1: No seu plano de metas, o senhor fala muito em uma gestão mais descentralizada e humanizada. Na prática, como isso vai funcionar? Como garantir que os campi do interior tenham a mesma atenção e recursos que a sede em Aracaju?

JOS: Na prática, vamos efetivar a Reitoria como uma instância de assessoria, supervisão e indução de excelência, e não como uma estrutura centralizadora. Garantiremos isso por meio do respeito ao processo de autonomia dos campi e do fortalecimento de fóruns colegiados decisórios, como o CONSUP e os Conselhos de Campus. A distribuição de atenção e recursos passará por critérios técnicos e participativos, olhando para as vocações territoriais de cada unidade e assegurando que as necessidades finalísticas de quem está no interior definam as prioridades orçamentárias da gestão. Um importante avanço será a construção dos Projetos Político-Pedagógicos dos Campi, o que permitirá um olhar sobre as demandas dos territórios, para que o IFS contribua com o desenvolvimento local e regional, apoiado em ciência, tecnologia e inovação, respeitando as culturas e valores dos territórios de Sergipe.

AJN1: Sabemos que o orçamento das instituições federais é um desafio. Como o senhor pretende lidar com isso? Há planos para captar mais recursos ou otimizar os gastos sem prejudicar o ensino e a pesquisa?

JOS: Enfrentaremos as restrições orçamentárias, principalmente em função de uma forte dependência de emendas parlamentares para a produção do conhecimento (aproximadamente 15% do orçamento discricionário), atuando em duas frentes fundamentais: inovação e eficiência na gestão pública. Vamos otimizar os gastos administrativos por meio do uso estratégico da tecnologia, da análise de dados para subsidiar tomadas de decisão que evitem desperdícios e da aplicação do orçamento participativo. Paralelamente, buscaremos, de forma ativa, a captação de recursos externos por meio de parcerias com o setor produtivo, emendas parlamentares e a submissão de projetos de pesquisa e inovação tecnológica a agências de fomento nacionais e internacionais, garantindo que nossas atividades finalísticas não percam o padrão de excelência. Importante destacar que o programa “Juros por Educação” poderá injetar cerca de R$ 8 bilhões anuais na Educação Profissional e Tecnológica, o que contribuirá para cumprir as novas metas do Plano Nacional de Educação, e já iniciamos os diálogos com agentes públicos para captação de recursos do PROPAG. Destacamos, também, que a retomada da produção de fertilizantes e do Sergipe Águas Profundas pode constituir uma oportunidade real de captação de recursos para melhoria da infraestrutura e laboratórios no âmbito do IFS.

AJN1: O senhor também destaca no plano ações como letramento antirracista e combate ao assédio. Quais devem ser as primeiras medidas práticas para que isso realmente aconteça no dia a dia da instituição?

JOS: A inclusão e a valorização da diversidade serão transversais em nossa gestão e nos projetos de cursos. As primeiras medidas práticas incluem o fortalecimento estrutural e pedagógico dos nossos núcleos de ações afirmativas: o NEABI (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas), o NAPNE (Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Educacionais Específicas) e o NEVA (Núcleo de Estudos sobre Gênero e Sexualidade). Destacamos que, recentemente, fizemos captação de recursos por meio da submissão de projetos junto à SECADI para oferta de formação continuada para fortalecimento das políticas de inclusão já para 2026. Além disso, implementaremos o aprofundamento do letramento antirracista, integrando o combate às discriminações diretamente no cotidiano pedagógico e institucional, inclusive ampliando as relações com outros ministérios e com a sociedade civil. Em relação ao combate ao assédio, transformaremos a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) em uma política sistêmica e rigorosa de gestão de pessoas, com canais seguros de acolhimento multiprofissional e apuração célere, bem como criação de estruturas de mediação.

AJN1: A evasão escolar ainda é um problema no ensino técnico. O que sua gestão pretende fazer, na prática, para manter os alunos — principalmente os mais vulneráveis — dentro do IFS?

JOS: A nossa prioridade absoluta para a permanência e o êxito estudantil consistirá em ampliar de forma expressiva o Plano Estratégico de Permanência e Êxito, identificando as variáveis que mais contribuem para os estudantes não permanecerem na instituição. Na prática, asseguraremos a participação de estudantes com déficits de aprendizagem em programas contínuos de recomposição de aprendizagens e suporte pedagógico e psicossocial. Na dimensão da infraestrutura social, assumimos o compromisso de viabilizar a conclusão das obras e o pleno funcionamento dos restaurantes estudantis em todos os campi, garantindo a segurança alimentar, que é basilar para que os estudantes em situação de vulnerabilidade consigam concluir seus estudos com dignidade, e a aplicação dos recursos para o transporte escolar, pois recentemente o Governo Federal incluiu a Rede Federal no Programa Nacional de Transporte Escolar, o que é um desafio para os campi da zona rural.

AJN1: Sobre a expansão do instituto: estão previstos novos campi, como em Japaratuba e na Zona de Expansão de Aracaju. Como garantir que esses projetos saiam do papel com estrutura adequada, mesmo com as limitações orçamentárias?

JOS: Para que os novos projetos nasçam com a qualidade que a marca IFS exige, atuaremos com um planejamento rigoroso de longo prazo e em forte articulação institucional. Em Japaratuba, já fizemos audiência pública e estudo para indicação dos possíveis cursos naquela unidade, que concentrará sua ação na formação para a área de energia, produção mineral e infraestrutura. O campus Japaratuba já está em construção e representa um investimento de 25 milhões de reais. Em Aracaju, recebemos recentemente a doação do terreno e, neste próximo semestre, teremos o processo licitatório para início das obras naquela região, que abrigará cursos na área da saúde, sendo 80% das vagas em cursos técnicos de nível médio. A garantia da estrutura adequada passará pelo estabelecimento de convênios estratégicos com os governos municipais, estadual e federal, além de buscar a destinação de emendas e parcerias público-privadas voltadas à infraestrutura. Faremos uma expansão responsável, assegurando que o aporte de capital para obras seja blindado e planejado em fases sustentáveis, sem descontinuar o suporte às unidades que já funcionam.

AJN1: No caso de Japaratuba, como o IFS pode pensar cursos que realmente dialoguem com essa realidade e ajudem a desenvolver a região?

JOS: O IFS só cumpre sua missão se respeitar as vocações territoriais e os arranjos produtivos locais, e ali já fizemos audiência pública, e o setor de Estudos Econômicos do IFS já consolidou estudos para que a oferta seja ajustada às demandas locais em relação à formação profissional. Para Japaratuba, pensaremos em cursos focados no desenvolvimento sustentável e regional; a princípio, estão previstos cursos de energias renováveis, eletromecânica e edificações, na proposta que já foi enviada à SETEC, mas poderá ser ajustada em função das demandas do setor de gás e petróleo, por exemplo. O objetivo é dar técnica e consciência crítica para que esses saberes se transformem em motores econômicos gerados de dentro para fora da comunidade.

AJN1: O senhor costuma defender que é importante ouvir a população. Como isso vai acontecer na definição dos cursos e áreas desses novos campi?

JOS: Ouvir a população é a base da nossa gestão democrático-participativa. Para os novos campi, realizaremos audiências públicas obrigatórias e consultas estruturadas envolvendo movimentos sociais, trabalhadores, o setor produtivo, estudantes e a comunidade em geral. Importante destacar que os cursos serão aprovados pelo CONSUP, que é formado por profissionais da educação, setor produtivo, sindicatos, estudantes e egressos. O desenho do Projeto Político-Pedagógico de cada nova unidade não será uma imposição de gabinete; deverá passar pelo próprio Conselho de Campus; nascerá do diálogo aberto e plural para que a oferta acadêmica corresponda exatamente aos anseios sociais e às demandas reais da população daquela região. Nossa visão é que um projeto de educação profissional e tecnológica para o trabalho deve ser elaborado com a classe trabalhadora.

AJN1: Com a criação de novas unidades, vem também o desafio de montar equipes. Como fazer isso sem prejudicar os campi que já estão funcionando?

JOS: Faremos isso por meio do Programa Novo Ciclo IFS, focado no fortalecimento da capacidade de planejamento e gestão de pessoas, revelando novas lideranças. A composição das equipes das novas unidades priorizará a captação de novos códigos de vagas junto ao Governo Federal e ao Ministério da Educação, o que indica que precisaremos realizar novo concurso público para docentes e técnicos administrativos. Caso haja necessidade de remoções internas, elas serão amplamente discutidas com as comissões técnicas e os servidores, de maneira planejada, utilizando o dimensionamento da força de trabalho com transparência para assegurar que nenhum campus existente sofra desfalques em sua eficiência e carga horária de atendimento.

AJN1: Na sua visão, a expansão do IFS pode ajudar a manter os jovens no interior do estado?

JOS: A interiorização da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) é um instrumento poderoso de fixação do homem em seu território com dignidade, pois, de acordo com a Lei nº 11.892/2008, os cursos devem apoiar o desenvolvimento local por meio de uma EPT voltada à transformação social sustentável dos territórios. Quando oferecemos educação gratuita de altíssima qualidade técnica e científica perto da casa do estudante, eliminamos a necessidade da migração forçada para a capital ou para outros estados. O jovem passa a vislumbrar um futuro profissional onde nasceu e cresceu e transforma sua vida e a de sua família.

AJN1: E como o Instituto pode contribuir para gerar emprego, inovação e renda nas regiões onde esses novos campi serão instalados?

JOS: O IFS atua como um ecossistema indutor de desenvolvimento socioeconômico, pois um princípio da formação do IFS é a pesquisa como princípio pedagógico, e essa pesquisa deve ser aplicada ao desenvolvimento de soluções para os problemas locais. Contribuiremos por meio do fomento à pesquisa aplicada e à extensão tecnológica voltada para a solução de problemas reais das empresas e cooperativas locais, bem como dos arranjos sociais. Estimularemos o empreendedorismo e a criação de tecnologias sociais, capacitando a mão de obra para atrair novos investimentos para o interior e permitindo que a inovação gerada nos laboratórios do IFS se reverbere na abertura de novos negócios e na elevação da renda das famílias sergipanas. Já iniciamos tratativas, por exemplo, para a implantação do Programa Acredita, do Ministério do Desenvolvimento Social, que permitirá que o IFS promova formação de empreendedores de pequeno e médio porte e, com parceria do Banco do Nordeste, será um programa importante que impactará os territórios de Sergipe.

AJN1: Pensando no futuro, como o senhor pretende inserir tecnologias como a inteligência artificial no ensino e na gestão do IFS nos próximos anos?

JOS: Esta será uma pauta prioritária. Além da minha formação básica, sou graduado em Ciência de Dados exatamente por entender a necessidade de aplicar inteligência artificial na gestão pública contemporânea. Na gestão, utilizaremos ferramentas digitais integradas e inteligência artificial para a construção de processos baseados em evidências, cruzando dados estatísticos institucionais para melhorar as políticas de ensino e combater preventivamente a evasão. No ensino, prepararemos o instituto para os novos cenários produtivos por meio do uso de metodologias ativas e da formação continuada de professores para o uso ético e pedagógico da inteligência artificial, qualificando nossos alunos para esse novo mundo do trabalho.

AJN1: Qual legado o senhor espera deixar para a comunidade acadêmica ao fim da sua gestão, entre 2026 e 2030?

JOS: O legado que busco deixar é o de um IFS estruturalmente robusto, administrativamente eficiente e, acima de tudo, profundamente humano, principalmente uma gestão apoiada no processo dialógico e na participação ampla da comunidade. Quero que consolidemos um modelo de gestão em que cada técnico-administrativo, docente e estudante se reconheça como sujeito ativo e autônomo das decisões da instituição. Espero entregar, em 2030, uma instituição que tenha sido um pilar inquestionável de inclusão social, soberania científica e desenvolvimento econômico para Sergipe, mostrando que é possível renovar com responsabilidade sem perder nossa essência democrática e acolhedora.

Fonte: https://ajn1.com.br/professor-jose-osman-assume-reitoria-do-ifs-com-foco-em-expansao-inclusao-e-gestao-descentralizada/