Utinga guarda ferrovia centenária que poucos conheciam

Mais do que uma amostra da biodiversidade amazônica e a gestão dos lagos que garantem 70% da água que abastece a cidade de Belém, o Parque Estadual do Utinga Camilo Vianna também preserva parte da memória da capital paraense. E um capítulo dessa história é rememorado com uma descoberta recente: vestígios de antigos trilhos ferroviários do início do século XX, que se mantiveram soterrados e até submersos por décadas, foram encontrados dentro do parque.

A busca que resultou na redescoberta dos vestígios se desenrolou por aproximadamente um ano e envolveu diferentes atores, entre guias de trilhas que atuam no Parque do Utinga, pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) e moradores antigos do bairro Curió-Utinga.

No total, o grupo conseguiu localizar quatro achados relacionados a trilhos, três deles identificados como sendo do sistema Decauville, uma tecnologia francesa de trilhos móveis e que era utilizada em terrenos instáveis. Registros históricos apontam que, no Pará, a utilização deste tipo de ferrovia esteve ligada ao Canal Água Preta, obra do engenheiro Francisco Bolonha que abastecia os reservatórios responsáveis pelo abastecimento de Belém.

Um dos envolvidos no achado, o gestor ambiental do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio) e condutor de trilhas, Diego Barros, conta que a iniciativa de buscar por esses vestígios foi despertada pela produção de um documentário sobre a cineasta alemã Pola Brückner, tida como pioneira na produção de filmes sobre a Amazônia. Pola esteve em Belém entre os anos de 1929 e 1930, e deixou um livro sobre a experiência na capital amazônica, destacando, inclusive, a linha férrea existente no Utinga à época.

“Veio até nós a neta de uma pesquisadora alemã que nos anos 30 veio para cá e fez um documentário sobre a Amazônia, passando por vários pontos. E um dos relatos que tem no livro e no documentário que ela deixou é sobre os trilhos de dentro do Utinga. Ela relata que fez um passeio pelos trilhos, uma aventura, e a neta dela, agora, voltou para o Brasil para tentar comprovar e refazer os passos da avó dela”.

Diante dos relatos dos produtores do documentário, Diego teve a confirmação das histórias que ele já tinha ouvido de moradores antigos do bairro do Curió-Utinga, a de que existiam trilhos ferroviários dentro do parque. Em meio às atividades rotineiras no local que recebe centenas de visitantes para atividades de trilha, boia cross, canoagem e stand up paddle, o engenheiro florestal foi em busca desses vestígios e uma rede de colaboração foi se formando.

“Daí em diante fomos encontrando pessoas que foram agregando conhecimento. Tem dois pesquisadores fantásticos da UFPA que foram fundamentais para a realização dessa pesquisa, que são o Haroldo Baleixe e Fernando Marques, do Laboratório Virtual da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPA, tivemos a participação também da comunidade local e dos condutores de trilhas. Então, toda essa equipe, cada um com o seu conhecimento, conseguiu redescobrir essa história dentro do Parque do Utinga”.

Para guiar as buscas, a equipe tinha mapas antigos que apontavam a existência de ramais férreos no Utinga, mas como os trilhos Decauville têm como característica ser desmontáveis, eles poderiam ter tido a sua localização inicial modificada, e o que tudo indica é que isso tenha realmente ocorrido. “Foi um trabalho muito difícil, mesmo com a documentação histórica. Inclusive, os trilhos que encontramos não estão na posição que deveriam estar, de acordo com o mapa. Eles foram descobertos graças a relatos de moradores antigos do Curió-Utinga”, conta Diego. “Outros documentos que foram fundamentais para o achado foram registros de fotos antigas que mostram onde esses trilhos estavam e nós fizemos uma análise temporal e conseguimos identificar exatamente onde eles estão através das imagens”.

As fotos são referentes ao acervo pessoal do Engenheiro Paulo Augusto Gadelha Alves, cedidas por sua filha. Nos registros antigos é possível ver o antigo Canal Yuna e, nas laterais, dos dois lados, os trilhos da ferrovia Decauville. O cenário é bem diferente do atual porque, décadas atrás, o sistema de abastecimento de água foi expandido e resultou no alagamento de uma parte maior do curso d’água. Hoje, o que se vê no local é o Igarapé do Yuna, onde são realizadas atividades de boia cross e canoagem.

Jefferson Azevedo, encontrou outros dois vestígios dos trilhos, completamente submersos.. Foto: Irene Almeida/Diário do Pará.

Foi justamente durante a condução de um desses passeios que o biólogo e condutor de trilhas do Ideflor-Bio, Jefferson Azevedo, encontrou outros dois vestígios dos trilhos, completamente submersos. “A gente já vinha nessa busca há muito tempo atrás, então, depois das primeiras descobertas, eu já tinha uma noção do que a gente estava procurando. E um dia eu estava fazendo um passeio de boia cross, o nível da água estava um pouco mais baixo, e deu para ver uma silhueta de metal”, conta Jefferson. “E eu tive aquela curiosidade de mergulhar, passei a mão e notei que eram trilhos. Eu marquei o perímetro e voltei depois, já sem estar conduzindo nenhum passeio, e constatei que realmente se tratava desse trilho Decauville”.

O primeiro achado submerso é referente a um pedaço de aproximadamente oito metros de trilho. Foi o suficiente para que Jefferson e Diego se empenhassem em ir em busca de outro resquício, encontrado um pouco mais à frente. “A gente voltou no rio, de caiaque, mergulhamos e conseguimos levantar porque era apenas uma parte de um lado do trilho, um fragmento de aproximadamente oito metros, e depois nós começamos a procurar mais, até encontrarmos de fato o trilho montado, com os dormentes, mais à frente. Esse segundo é bem maior e está montado dos dois lados, conseguimos ver somente mergulhando”, conta Jefferson. “Quando eu encontrei a primeira parte eu já fiquei feliz porque nós procuramos em locais tão longe e estava tão perto. Foi uma surpresa muito grande, não só pra mim, mas pra equipe toda que estava fazendo parte desse trabalho”.

Relacionados especificamente a trilhos, foram quatro achados no total. Dois submersos, dentro do Igarapé do Yuna, um retorcido em uma área de mata, e um quarto achado cuja origem ainda está sendo investigada, já que a bitola do trilho é maior do que a utilizada pelo sistema Decauville. O trilho que ainda está sendo investigado está localizado próximo à Estação de Tratamento de Água de Belém.

RASPADEIRA

Além dos trilhos, também foi encontrado um equipamento antigo ligado à ferrovia Decauvillhe, próxima aos trilhos retorcidos localizados na mata. Mais uma vez, os registros antigos do acervo do Engenheiro Paulo Augusto Gadelha Alves ajudaram a identificar a peça como uma antiga raspadeira. “Temos fotos dessa peça na íntegra e de parte da sucata. Com isso, chegamos à conclusão que essa peça é uma raspadeira, um implemento usado para deixar o terreno mais plano”, explica Diego Barros.

“Tem a inscrição da Bucyrus-Erie, uma empresa americana e que há registros de compra desses equipamentos na época do início do abastecimento de água de Belém. Então, provavelmente, esse equipamento foi utilizado para implementar os trilhos já que tinha essa malha ferroviária aqui, e isso está documentado, de cerca de 6 km de ferrovia Decouville dentro do parque”.

Diego conta que o que se tem conhecimento é que o sistema Decauville era utilizado para transportar insumos para o abastecimento de água, lenha, carvão, peças de reposição para os maquinários. Porém, mais uma vez, estudos mais detalhados poderão investigar o uso dado ao sistema dentro do parque. “Há alguns relatos de pessoas que passearam por esses trilhos também, mas são relatos orais, de antigos moradores que os pais ou avós diziam que tinha uma linha que eles passeavam de trem dentro do Parque do Utinga, mas não temos, ainda, como comprovar que esses trilhos eram utilizados para esses fins”, explica Diego.

“Eu trabalho no Parque do Utinga há 17 anos e sempre perguntei para as pessoas mais antigas sobre o passado, a história do parque e sobre os trilhos porque estava se perdendo o conhecimento da existência desses trilhos aqui. Faz um ano que estamos nessa jornada da descoberta e eu ouso dizer que ainda tem muito mais coisa pra ser descoberta no Parque do Utinga”.

Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/achado-no-parque-do-utinga-pode-mudar-o-que-sabemos-sobre-a-historia-de-belem/