Consumidor continua tendo que pagar mais caro pelo peixe e açaí

O peixe e o açaí, alimentos paraenses tradicionais, apresentaram reajustes no último mês. A maioria das espécies do pescado apresentou aumento de preço entre março e abril. É o que aponta pesquisas do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos Regional Pará (Dieese-PA).

Vinte das 23 espécies de peixe pesquisadas apresentaram reajuste de preço, na comparação entre março e abril. A maior alta mensal foi do tucunaré (9,73%), seguidos pela pratiqueira (8,8%), curimatã (8,71%), traíra (7,51%), cação (4,47%) e arraia (4,43%). Ainda que menor, outras espécies bastante consumidas pela população apresentaram elevação, como filhote (3,82%), mapará (3,73%), pescada branca (3,34%) e bagre, 4,03% (veja mais no box).

No Mercado de Peixe do Ver-o-Peso, em Belém, o pescado estava com um preço um pouco mais acessível, ontem (15). A gurijuba foi comercializada entre R$20 e R$25, a pescada branca a partir de R$8, a pescada amarela de R$15 a R$23, o curimatã a R$15, o tambaqui a cerca de R$20, o filhote a R$25 e a dourada a aproximadamente R$15.

Segundo o peixeiro Fernando Souza, presidente do Sindicato dos Peixeiros de Belém e Ananindeua (Sindpeixe), o preço do pescado ainda não baixou como deveria nesta época devido a entressafra do pescado amazônico. No box, ele vende dourada, filhote e pescada amarela, que ainda não apresentaram um bom preço para este período do ano, apesar de já ter tido um tímido recuo em relação à Semana Santa.

“A pescada amarela, por exemplo, que mais se mantém nesse alto patamar. Ela não baixou mais de preço porque está em falta. Uma pescada amarela boa mesmo está a 35, 40 reais. O preço da dourada e filhote já era para estar bem mais em conta, mas acho que o período chuvoso prolongado atrapalha bastante um preço melhor”, avaliou.

Fernando destaca que as chuvas incidem diretamente no transporte do peixe para Belém. “Uma viagem para durar quinze dias, vai durar vinte ou vinte e cinco dias. Aumenta a despesa do pescador, sem falar que ele não pega a quantidade que tinha intenção e retorna mais tarde com menos peixe. Isso acaba deixando tudo mais caro e ele tem que compensar o gasto”, afirmou.

O aposentado João Freitas, 68 anos, é cliente assíduo do Mercado de Peixe, onde compra o pescado pelo menos duas vezes na semana. Segundo ele, os peixes já estão com um preço mais acessível em maio em relação a abril e março. Porém, os valores ainda não estão próximos da média em comparação ao primeiro semestre do ano passado.

“Já está um preço mais ou menos, está um pouco mais acessível do que estava há um tempo atrás. Eu costumo comprar muita dourada que agora está a vinte reais o quilo. Eu sempre acompanho os preços, sempre venho no mesmo peixeiro, já é de confiança. Mas se fosse um tempo atrás o preço ia estar melhor”, afirmou.

AÇAÍ

O preço médio do litro do açaí apresentou alta pelo quarto mês consecutivo este ano. Os aumentos expressivos foram observados na comparação mensal, no acumulado do primeiro quadrimestre do ano e na análise dos últimos doze meses. O cenário foi de alta generalizada na capital paraense, apesar das variações do tipo do produto e os locais de comercialização.

Dados demonstram que o litro do açaí do tipo médio foi comercializado em média a R$43,72 em abril, enquanto em março estava a R$41,30. O aumento é quase de 6% entre os dois meses. As altas sucederam uma certa estabilidade em janeiro deste ano, quando o produto chegou a R$28,82 após um recuo, em dezembro de 2025, quando foi vendido a R$28,77. Em comparação com abril do ano passado, quando o produto foi comercializado em média a R$35,50, houve um reajuste de 23,15%. Já no acumulado do primeiro quadrimestre de 2026, a alta alcança 51,7%.

O litro do açaí do tipo grosso segue a mesma tendência, sendo comercializado em média a R$65,05 em abril, enquanto em março estava a R$57,53. O aumento foi de 13% entre os meses. O preço do produto iniciou 2026 com certa estabilidade, vendido a R$41,95 após um recuo observado em dezembro de 2025, quando ficou em R$41,65. No comparativo com abril de 2025, quando o produto foi comercializado a R$52,10, houve um reajuste de 24,86%. No acumulado do primeiro quadrimestre, a alta alcança expressivos 55,07%.

De acordo com o supervisor técnico do Dieese-PA, Everson Costa, o principal fator que explica este cenário é a entressafra. Além disso, a comercialização, preço da exportação, quantidade de atravessadores são outras condições que também marcam a alta do produto. “Nós fechamamos o mês de abril encontrando o litro do açaí com preço recorde, com aumento que chegou a 80 reais”, complementa.

“Oitenta reais equivale a um quilo de carne de primeira, mais nobre, um filé, uma picanha. Estamos falando de equiparações de um litro de açaí com outros produtos que não estão ao alcance da maioria da população pelo fator preço”.

A espera é pelo fim da entressafra, quando deve ter uma oferta maior do fruto e o vinho começa a ficar mais barato. “De fato, ele já começou a apresentar alguns sinais de queda, mas não suficientes para derrotar 50% de aumento em quatro meses. A queda não vem na mesma velocidade e proporção do que o aumento. A safra que virá depende do impacto climático, do custo logístico da distribuição e pode também cair menos ainda. Então, tem outros fatores que precisam combinar bem para que a gente possa afirmar que, de fato, na safra o preço do produto estará mais em conta”.

Nos primeiros quinze dias de maio, o preço do açaí segue elevado em Belém. Em pontos de venda e feiras da capital paraense, consumidores ainda encontram o litro do produto com valores considerados altos, apesar de uma leve redução nas últimas semanas. Segundo vendedores, o excesso de chuva tem dificultado a colheita do açaí nas áreas ribeirinhas, reduzindo a oferta e pressionando os preços para cima.

De acordo com a batedora de açaí Lays Sampaio, 38, no início de abril o litro do açaí chegou a ser vendido por até R$80 em aplicativos de entrega. Agora, no começo do mês, houve uma redução de cerca de 25%, mas o valor continua acima do esperado para o período. “Era para o preço ter baixado mais agora em maio, mas infelizmente a gente teve muita chuva e o preço voltou a subir. O ribeirinho não consegue apanhar o açaí e quando chega pouco produto na feira o preço aumenta”.

Além do impacto climático, a trabalhadora também relata dificuldade para competir com vendedores que utilizam misturas no produto. “Tem gente colocando mistura de sorvete no açaí para vender mais barato, mas aí já não é um açaí 100% natural. Por isso que a gente chega em alguns bairros e o açaí está bem barato, mas quando vai ver é um monte de mistura que eles colocam para driblar os preços altos do fruto”.

A expectativa é que o cenário comece a melhorar nas próximas semanas, caso o período de chuvas diminua. “Se continuar chovendo, o preço não baixa agora. Mas a expectativa é que daqui a uns quinze dias a chuva diminua e o açaí volte a melhorar. Daqui a pouco ele pode chegar novamente aos R$20”.

PREÇOS

l Entre março e abril, o preço médio do quilo do tucunaré foi de R$24,88 para R$27,30, enquanto a pratiqueira passou de R$20,57 para R$22,38; o curimatã de R$22,49 para R$24,45; traíra de R$16,11 a R$17,32; o cação de R$20,34 para R$21,25 e a arraia de R$14,68 para R$15,33. Já o quilo do filhote chegou a média de R$42,92; o mapará a R$19,77; a pescada branca a R$20,44 e o bagre a R$17,56.

l Apenas três espécies de peixe apresentaram redução de preço. O quilo do tamuatá teve recuo de 10,68%, saindo de R$24,82 para R$22,17, enquanto a dourada (8,16%) caiu de R$29,55 para R$27,14, e a corvina (3,26%) de R$25,15 para R$24,33.

l No comparativo dos últimos doze meses, o pescado também apresenta reajustes elevados, superando a inflação oficial do país, estimada em 4,14%. O aracu foi a espécie que mais subiu de preço, acumulando alta de 84,48%. Sendo assim, o preço médio do quilo do peixe em abril de 2025 era de R$14,50, enquanto no mesmo mês de 2026 passou para R$27,17. Outras espécies seguiram o mesmo comportamento, como a sarda (37,30%), pescada gó (31,58%), serra (27,80%), curimatã (25,77%), filhote (24,33)%, bagre (23,31%), mapará (22,41%), e pescada branca (20,59%).

l De acordo com o Dieese-PA, a elevação dos preços está relacionada ao período da Semana Santa, marcado pelo aumento do valor e do consumo do pescado. Fatores como custo de transporte, logística, condições climáticas e a dinâmica da oferta regional também contribuíram para a elevação dos preços.

CHUVAS

A alta no preço do açaí voltou a impactar consumidores e vendedores no mercado do Ver-o-Peso durante os meses de abril e início de maio. Segundo o vendedor Ulisses Silva, 43, as fortes chuvas têm dificultado a produção e o transporte do fruto, fazendo com que os valores oscilem. Em algumas semanas, o litro do açaí chegou a cair para R$20 ou R$25, mas voltou a subir rapidamente após novos períodos de chuva intensa, alcançando até R$40.

“Quando faz sol, o açaí baixa porque melhora a colheita e o transporte. Mas bastou chover de novo que o preço subiu. Semana passada tinha lugar vendendo a R$16 ou R$18 o litro. Agora já voltou para R$30, R$35 e até R$40, depende da qualidade”, relata. No box dele, o litro está custando R$30.

Além da venda do açaí puro, o comerciante também oferece refeições acompanhadas do produto. Pratos com peixe, açaí, combos (peixe com açaí) continuam sendo procurados pelos clientes, apesar da alta dos preços. A expectativa é de que o valor da fruta só apresente queda mais significativa a partir de julho, com o início da safra. “São seis meses de safra e seis meses de entressafra. Enquanto continuar chovendo muito, o preço vai subir e descer”.

Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/consumidor-continua-tendo-que-pagar-mais-caro-pelo-peixe-e-acai/