Os 103 anos da concessão do Título Basilical à Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré são comemorados neste domingo (19). A honraria foi concedida pelo Papa Pio XI em 1923. Uma igreja recebe esse título em razão de sua relevância espiritual, histórica e pastoral para a região onde está inserida. Com a distinção, a igreja de Belém tornou-se a terceira do Brasil a receber o título de Basílica Menor e permanece como a única da Amazônia brasileira a possuir essa condição.
Devoção e simbolismo da Basílica de Nazaré
Em Belém, a devoção dos paraenses à Nossa Senhora de Nazaré é uma das maiores expressões de fé do país. Nesse contexto, a Basílica se consolidou como um dos principais símbolos religiosos do estado e reafirma o papel da Igreja Católica na história e na cultura paraense. No presbitério do templo estão o tintinábulo e o umbráculo, insígnias exclusivas concedidas pelo Vaticano às igrejas que recebem o título basilical.
O historiador e cientista da religião Márcio Neco explica que a palavra “basílica” tem origem no termogrego basiliké, utilizado para designar grandes construções da Antiguidade Clássica Romana destinadas a reuniões políticas, administrativas e comerciais, capazes de reunir um grande número de pessoas.
“Com a expansão do cristianismo, esses prédios passaram a ser adaptados para os encontros religiosos”, contextualiza o pesquisador. Ele lembra ainda que as quatro Basílicas Maiores da Igreja Católica são a de São Pedro, no Vaticano, e São João de Latrão, Santa Maria Maior e São Paulo Extramuros, localizadas em Roma, na Itália.

Segundo Neco, a concessão do título de Basílica depende de critérios avaliados pelo Papa, que considera aspectos espirituais, históricos e pastorais da igreja. Antes de receber a distinção, o templo era conhecido como Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré do Desterro e atendia uma extensa área, alcançando inclusive municípios do interior do Pará.
“Dada a característica espiritual que já havia, com uma devoção consolidada aqui em Belém do Pará e um grande trabalho pastoral, sem sombra de dúvida é uma riqueza histórica. Já tínhamos mais de dois séculos de práticas devocionais, de realização de culto, do próprio Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Isso tudo vai ajudar a fazer com que o Papa Pio XI, em 19 de julho de 1923, conceda o título basilical à então paróquia.”
Para o historiador, a elevação da igreja à categoria de Basílica representou o reconhecimento de um patrimônio religioso já consolidado e fortaleceu ainda mais sua importância para a Igreja Católica.
“Isso vai fazer com que haja o reconhecimento de todo o trabalho da Arquidiocese de Belém, dos padres que passaram pela Igreja de Nossa Senhora de Nazaré e de toda a grandeza espiritual em torno da imagem encontrada por Plácido”, afirma. “A Basílica passou também a ser um grande ícone da identidade religiosa e da arquitetura da cidade”.
Outro aspecto destacado por Neco é a influência da Basílica no desenvolvimento urbano de Belém, especialmente do bairro de Nazaré.
“Tudo o que conseguimos vivenciar na Basílica tem um elemento central, que é a devoção a Nossa Senhora de Nazaré, surgida a partir do achado da imagem pelo caboclo Plácido. A construção da primeira ermida, a divulgação boca a boca da imagem milagrosa encontrada e as longas caminhadas dos primeiros devotos pelos caminhos de mata contribuíram para consolidar essa devoção. Foi esse processo que deu origem, posteriormente, à paróquia.”
Para o pesquisador, a Basílica integra a identidade do povo paraense por concentrar celebrações que acompanham diferentes momentos da vida dos fiéis, como missas, casamentos, batizados e orações.
“O devoto que construiu essa forte devoção ao longo dos séculos, originando a paróquia, o Círio e a Basílica, tem a igreja como a casa da mãe, onde se sente acolhido e próximo da imagem que venera. A Basílica de Nazaré deixa de ser apenas um templo religioso e também se torna símbolo da identidade cultural, da história e da arquitetura do povo paraense.”
O historiador ressalta ainda que o título basilical evidencia uma característica marcante da religiosidade amazônica, que encontrou em Nossa Senhora de Nazaré uma figura materna de proteção e esperança.
“Quando pensamos em uma Belém do período colonial, quando não existiam hospitais como os conhecemos hoje, o sistema de saúde era extremamente precário e diversas epidemias atingiam a cidade. Diante dessa realidade, a população encontrava na fé, nas promessas e na devoção a Nossa Senhora de Nazaré o principal amparo.”
Fluxo de visitantes em busca de oração é diário
Ao longo do dia, a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré recebe um fluxo constante de fiéis e visitantes que chegam em busca de oração, reflexão e fortalecimento da fé. Enquanto alguns participam das missas, outros permanecem em silêncio diante da imagem da padroeira, fazem o sinal da cruz ou apenas contemplam a arquitetura do templo, marcada pela imponência, pelos vitrais e pela atmosfera de paz. Cada visitante carrega consigo uma história de devoção, esperança e gratidão.
A comerciante Ivanilda Brito, 39, faz parte desse grupo. Natural do Pará, mas morando atualmente no Amapá, ela aproveita todas as oportunidades para visitar a Basílica quando retorna ao estado.
A devoção a Nossa Senhora de Nazaré começou ainda na infância, influenciada pelos pais e demais familiares, que fizeram da fé uma tradição transmitida de geração em geração. Desde então, visitar o santuário tornou-se um compromisso pessoal sempre que está em Belém.
Ao entrar na Basílica, Brito conta que sente uma mistura de emoção, acolhimento e gratidão. Para ela, estar diante da imagem de Nossa Senhora representa muito mais do que uma visita religiosa, sendo um reencontro com suas origens, com a história da família e com a espiritualidade que a acompanha desde criança.
No local, ela agradece pelas conquistas alcançadas, pela proteção durante as viagens e pelas bênçãos recebidas ao longo da vida.
“Eu me sinto bem aqui. É muito bom estar perto de Nossa Senhora de Nazaré. É um sentimento único que não tem explicação, não tem palavras”, ressalta.
A empresária Ana Cláudia Silva, 54, também cresceu em uma família católica e desde pequena acompanha as celebrações dedicadas à padroeira dos paraenses. Ao longo dos anos, transformou a visita à Basílica em um hábito de fé que faz questão de manter, especialmente nos momentos de agradecimento pelas conquistas pessoais e familiares.


Recentemente, uma das graças celebradas foi a conquista da nova moradia, considerada por ela uma resposta às orações feitas no santuário. Sempre que entra na igreja, Segundo ela, o ambiente silencioso, a beleza dos vitrais, a iluminação e a imponência da arquitetura favorecem momentos de introspecção e fortalecem a espiritualidade.
Ela também destaca as melhorias realizadas após a restauração da Basílica, que tornaram o espaço ainda mais acolhedor para os visitantes. “Nossa Mãe sempre nos acolhe na casa dela. Após a reforma, ficou muito mais bonito aqui e temos a sensação de que estamos sendo mais protegidos”, afirma.
Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/ha-103-anos-nossa-igreja-de-nazare-foi-elevada-para-basilica/

