Imprudências colocam vidas em riscos nas ciclovias

O aumento de acidentes envolvendo ciclistas em Belém reacende o debate sobre segurança viária, respeito às leis e a efetividade das políticas públicas de mobilidade urbana. Mesmo em espaços destinados exclusivamente às bicicletas, como ciclovias e ciclofaixas, imprudências e falhas estruturais continuam colocando vidas em risco.

Especialista em trânsito, Rafael Cristo avalia que ainda falta base científica para identificar, com precisão, as principais causas da violência no trânsito. “Não há estudos que evidenciem se ela está mais relacionada a fatores comportamentais ou institucionais. Por isso, torna-se imprescindível que o gestor invista em estudo e pesquisa para, com planejamento, aplicar ações concretas de educação de trânsito”, destaca.

Flagrantes de desrespeito cruzamento Senador Lemos, esquina com a Trav. Perebebuí e Passagem Gastão em Belém. Foto: Irene Almeida/Diário do Pará.

Cristo também chama atenção para as infrações mais comuns nesses espaços. Segundo ele, trafegar com veículos automotores em ciclofaixas é infração gravíssima, com sete pontos na carteira e multa de R$ 880,41, conforme o Código de Trânsito Brasileiro. Já estacionar nesses locais é infração grave, com cinco pontos e multa de R$ 195,23.

Apesar disso, o especialista pondera que o aumento no valor das multas não é, por si só, solução para reduzir acidentes. “Não vislumbro que ampliar o valor das penalidades seja o caminho. Há evidências de uma falha estrutural em todo o sistema, desde a gestão até a formação dos condutores”, afirma. Ele também critica a legislação pela falta de acompanhamento contínuo dos motoristas. “Passar até dez anos sem acompanhamento educacional é algo questionável”.

Imprudência no mesmo perímetro de Belém, local do acidente, que vitimou uma jovem de 14 anos na última sexta-feira, 24 de março de 2026. Foto: Irene Almeida/Diário do Pará.

Além da fiscalização, Cristo defende o incentivo à mobilidade ativa e campanhas educativas positivas. Ele observa, por exemplo, comportamentos de risco adotados por ciclistas. “É comum ver ciclistas atravessando cruzamentos sem desmontar. É importante reforçar que descer da bicicleta pode garantir uma travessia mais segura”, orienta.

A necessidade de melhorias na organização do trânsito também é apontada por outro especialista, Benedito França, analista de infraestrutura de transportes. Ele explica que cruzamentos com múltiplos fluxos aumentam o risco de acidentes. “Movimentos conflitantes são os que geram sinistros. Em vias com grande volume de tráfego, como a avenida Senador Lemos, isso se intensifica”, diz. Na Senador Lemos, na semana passada, uma adolescente de 14 anos foi atropelada, de bicicleta, na ciclofaixa, enquanto voltava da escola e morreu.

A crescente ocorrência de acidentes envolvendo ciclistas, inclusive em áreas destinadas exclusivamente à circulação de bicicletas, acende um alerta sobre segurança viária e respeito às regras de trânsito. Foto: Mauro Ângelo/ Diário do Pará.

Segundo França, a instalação de semáforos nesse ponto onde o sinistro aconteceu é fundamental para ordenar o fluxo e reduzir colisões. “Com a sinalização semafórica, você organiza o trânsito e aumenta a segurança viária. E, com a tecnologia atual, é possível sincronizar os sinais e criar a chamada ‘onda verde’, evitando congestionamentos. Pelas características da via e pelo volume de tráfego, essa intervenção seria inevitável em algum momento”, explica.

Na última semana, agentes da Secretaria de Segurança, Mobilidade e Ordem Pública de Belém (Segbel) monitoravam o cruzamento problemático da Senador Lemos com a Perebebuí e ajudavam os pedestres e ciclistas na travessia. Nesse momento, um condutor de 42 anos foi flagrado tentando cortar o engarrafamento por dentro da ciclofaixa – no mesmo local em que a jovem morreu. Ele foi multado por um agente. Ao conversar com a reportagem, admitiu o erro, pediu desculpas a todos e justificou a necessidade de chegar rápido em casa para ajudar a esposa que está grávida. “A gente acaba facilitando para chegar mais rápido em casa, mas é arriscado. Agora vou evitar, até pela minha segurança e pela dos ciclistas”, reconhece.

Morador da região há 25 anos, o professor aposentado Aldo Fontoura, 63, afirma que os problemas se agravaram com mudanças no trânsito local. “Era uma via de mão dupla, mas quando passou a ser mão única, virou uma grande rota de saída da cidade e o fluxo aumentou muito, principalmente nos horários de pico”, relata. Segundo ele, a situação se torna ainda mais crítica por conta da presença de escolas no entorno e da falta de respeito às regras básicas. “Há uma série de imprudências de pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas. A gente fica à mercê, às vezes esperando vários minutos para conseguir atravessar”, diz.

Fontoura também destaca que a cobrança por melhorias é antiga. “Já pedimos diversas vezes por sinalização. Isso aqui afeta diretamente a cidadania, porque pagamos impostos e não temos segurança adequada. Ou se investe em educação, ou em punição. Infelizmente, o brasileiro ainda precisa ser condicionado. Quando dói no bolso, ele muda o comportamento”, conclui.

Já o também morador da Sacramenta, Edilson Costa, 64, relata o medo constante ao tentar atravessar a Senador Lemos. “Às vezes tem muito carro e a pessoa se arrisca. Tem motorista que para, mas outros não. Se a gente vacilar, acaba sendo atropelado”, conta. Ele afirma que já presenciou diversos acidentes na área e acredita que o novo semáforo chega como uma medida necessária. “Aqui sempre foi muito perigoso. Esse sinal vem em boa hora. É melhor esperar alguns minutos do que se arriscar”, afirma. A instalação do semáforo na Senador, no cruzamento da Gastão com Perebebuí, ainda não terminou e deve prosseguir nos próximos dias, segundo agentes da Segbel que estavam no local.–

Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/imprudencias-colocam-vidas-em-riscos-nas-ciclovias/