Um túmulo cercado de placas de agradecimento e uma “capela” direcionada à homenagens. Este é o local do último repouso de Severa Romana, brutalmente assassinada em Belém, em 1900, aos 19 anos. Mais de 125 anos depois do episódio, a jovem se tornou santa popular e “heroína da honra”. Abaixo você confere a história completa.
A pesquisa sobre Severa Romana ganhou fôlego com a descoberta do processo judicial original sobre o caso, pelo Centro de Memória da Amazônia (CMA), ligado à Universidade Federal do Pará (UFPA).
Severa Maria da Conceição Romana Ferreira era filha de imigrantes italianos e natural do estado do Maranhão. Ela se casou em 1898 com o soldado Pedro Cavalcante d’Oliveira, que pertencia ao 15º Batalhão de Infantaria.
O casal se mudou para Belém, indo morar no bairro de Nazaré, em uma casa alugada na rua João Balbi, nº 81. Ela trabalhava como lavadeira e fornecia alimentação na casa. Ficou grávida entre 1899 e 1900.
No quartel, o esposo da jovem conheceu outro militar, o cabo Antonio, que pediu que Severa cuidasse de suas roupas e, algum tempo depois, alugou uma sala dentro da residência do de Severa e Pedro, onde passou a residir.
O crime
No dia 2 de julho de 1900, por volta de 19h30, o cabo aproveitou a ausência do colega de farda, que estava no quartel, e tentou violentar sexualmente a jovem. Quando Severa recusou suas investidas, ele a assassinou usando a navalha que usava para fazer a barba.
A dona da casa, Joanna Maria Gadelha, ouviu os gritos de Severa pedindo socorro e, ao confrontar o réu, ele a ameaçou de morte. Em seguida, Antonio fugiu da casa correndo em direção à Travessa Quatorze de Março.

Ele foi perseguido por pessoas que “apitaram chamando por socorro” e buscou refúgio no Estado Maior do 15º Batalhão de Infantaria na mesma noite do crime, comunicando o assassinato. Ele foi preso imediatamente.
Uma testemunha do caso, José do Patrocinio Santos, ao chegar na casa, atestou a brutalidade no corpo de Severa Romana: golpe profundo do lado direito do tronco, diversos ferimentos nas mãos (sugerindo luta e defesa) e outro ferimento profundo no pescoço que mostrava degolamento.
O julgamento
Ainda em julho de 1900, quando foi levado ao Tribunal, uma multidão cercou o quartel gritando “fora a fera fardada” e ameaçavam apedrejar o preso. O julgamento se estendeu por meses até novembro de 1901, quando Antonio recebeu a pena de 30 anos de prisão.
A sentença final especificava que a pena seria cumprida na cadeia pública de São José, onde hoje funciona o Pólo Joalheiro, no bairro do Jurunas.
Outras testemunhas do processo descreveram a vítima como mulher de “belas qualidades”, sendo “prestativa e bondosa”, além de “honrada e fiel”. A dona da casa onde o casal morava afirmou que nunca houve ocasião que despertasse “a menor desconfiança a respeito dos deveres de Severa como mulher casada”.
Durante o julgamento, o cabo Antonio tentou justificar o crime afirmando que Severa tinha “má conduta” e que ela mantinha relações sexuais com ele na ausência do marido. Os cortes seriam “acidentais”, sem intenção de matar. Essas considerações foram afastadas pelos julgadores, que mantiveram a pena.
A santa “heroína da honra”
O culto popular à Severa Romana começou logo após sua morte. Os registros apontam que na manhã do dia 12 de agosto de 1900, houve uma “romaria dos piedosos”, reunindo mais de 500 pessoas que se dirigiram para prestar homenagem ao túmulo da jovem.
Na lápide de sua sepultura há o registro “homenagem popular à virtude heroica”. O local passou a receber muitas visitas de pessoas que faziam preces e homenagens, solidificando a imagem de “santa popular” e “heroína da honra” no imaginário paraense.


Em 1977, Dom Alberto Gaudêncio Ramos, então Arcebispo de Belém, criou uma oração à Severa. Na década de 1980, iniciou-se um processo de coleta de informações sobre milagres para servir de base documental para abertura do processo de beatificação de Severa.
A coleta foi interrompida devido à morte do padre responsável, Vicente Schiena, e à falta de documentação comprobatória das graças atribuídas. Ainda hoje, dezenas de fiéis acendem velas e deixam placas de agradecimento por graças alcançadas pela intercessão de Severa.
Outros detalhes você confere no transcrito completo, feito pelo CMA, clicando aqui.
Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/severa-romana-santa-popular-brutalmente-assassinada-em-belem/

