O canal Tucunduba virou uma “praia” improvisada durante o calor do verão amazônico, mas a presença de banhistas abriu um alerta sanitário em Belém. Vídeos divulgados entre sexta-feira (17) e sábado (18) mostraram crianças, jovens e adultos entrando na água, com guarda-sol, cadeiras e até sofá na margem entre Terra Firme e Guamá. As cenas viralizaram com o bordão “Partiu, Tucunduba” e com um morador dizendo não sentir inveja de Outeiro ou Mosqueiro.
Nesta semana, uma nota técnica do Observatório das Baixadas alertou para que a população não tome banho e não permita a entrada de crianças no canal. O coletivo relacionou a procura pelo local à falta de sombra, lazer e água limpa nas baixadas, mas advertiu que o trecho recebe contaminação associada ao esgoto. O aviso foi dirigido especialmente às comunidades da Terra Firme, Guamá, Cremação e Jurunas.

Pesquisadores identificam 11 tipos de vírus
Na postagem, o Observatório afirma que pesquisadores do Instituto Evandro Chagas encontraram no ponto usado para banho 11 tipos de vírus relacionados a esgoto, bactérias causadoras de diarreia e disenteria, vírus da hepatite A, coliformes fecais acima do limite e genes de resistência a antibióticos.
A síntese oficial do IEC confirma estudo com amostras coletadas em 2020 no Tucunduba e em outros sete corpos d’água de Belém, com 473 famílias de bactérias, 83 de vírus, microrganismos multirresistentes e metais. O resumo público, porém, apresenta dados agregados e não individualiza todos os agentes encontrados exclusivamente no Tucunduba.


Canais podem ter esgoto, fezes e microrganismos
A infectologista Andrea Beltrão alertou que canais urbanos podem conter esgoto, lixo, fezes de animais, resíduos e microrganismos. O contato pode provocar gastroenterites, hepatite A, leptospirose, dermatites, micoses, conjuntivites, otites, verminoses e infecção de feridas. O risco aumenta quando a pessoa engole a água ou possui cortes na pele. Febre, vômitos, diarreia, dor abdominal, coceira, olhos vermelhos, dores musculares ou pele amarelada após a exposição exigem atendimento médico.
Postagens mostraram no último fim de semana que a “praia” surgiu em um trecho em obras, após dragagem e abertura de uma faixa de areia. Um morador contou que colocou uma sombrinha e entrou na água porque o calor aumentou e árvores foram retiradas. Outro afirmou que hoje evita o banho porque “vem muita sujeira quando a maré desce”.
Obras e saneamento básico
A área integra a urbanização e qualificação do Tucunduba, autorizada em 1º de abril de 2026. O projeto prevê investimento de R$ 96 milhões em 1,2 quilômetro do canal, com parque linear, drenagem, redes de esgoto e água, pavimentação, equipamentos de lazer e 96 unidades habitacionais. As intervenções alcançam moradores do Guamá, Terra Firme, Canudos, Universitário e Marco.
O Observatório sustenta que o episódio não deve ser atribuído apenas aos moradores em busca de alívio para o calor, mas ao déficit histórico de saneamento e de espaços públicos de lazer nas baixadas. O coletivo cita que Belém trata cerca de 13% do esgoto. O indicador mais recente disponível no Sinisa 2024 aponta tratamento de 25% do volume gerado e acesso ao serviço para 25,3% da população. Apesar da diferença entre as bases, os números mostram que a maior parte da cidade permanece sem cobertura adequada.
O Instituto Evandro Chagas mantém desde setembro de 2024 um novo projeto de monitoramento, com coletas mensais em canais de Belém, incluindo pontos do Tucunduba no Guamá e na Terra Firme. Enquanto as obras e o saneamento não eliminam a contaminação, a orientação sanitária permanece direta: não entrar na água, não deixar crianças tomarem banho e procurar uma unidade de saúde caso apareçam sintomas após a exposição.
Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/tucunduba-vira-praia-improvisada-mas-alerta-cita-11-tipos-de-virus/

