A verdade não cabe na bolha

DAVI MOLINARI

Havia um silêncio de expectativa no Fale Mais Sobre Isso.

Não era falta de assunto. Era excesso de realidade.

Na televisão, as notícias se sucediam como numa prova de cem metros rasos, com um escândalo tentando ultrapassar o anterior.

Juvenal dividia a atenção entre os clientes que chegavam e a tela, onde a democracia brasileira disputava uma corrida de obstáculos com os próprios sabotadores.

Eu já estava acomodado diante do Doutor, aproveitando o happy hour para filar mais uma sessão de psicanálise.

Ele observava tudo. O país oferecia material clínico suficiente para aposentar Freud e convocar reforços.

Juvenal chegou com duas tulipas de chope e as manjubinhas.

– Juvenal, não existe sofrimento mais insuportável do que assistir à injustiça triunfar sobre a verdade.

– Está falando do Kássio com Ká, meu Analisado? O homem que preside o TSE com aquela expressão de quem foi condenado a passar a eternidade numa fotografia de documento?

– Também. Mas estou falando de algo pior. As pessoas acreditam em mentiras tão grosseiras que deveriam vir acompanhadas de um pedido de desculpas à inteligência humana.

O Doutor endireitou-se na cadeira e sacou o indefectível bloquinho.

– São as bolhas – explicou Juvenal. – Antigamente, o sujeito precisava sair de casa para encontrar alguém que concordasse com suas bobagens. Hoje, o algoritmo entrega uma multidão na cama dele.

– E o pior é que acreditam!

– A mentira dá conforto, meu Analisado. A verdade dá trabalho.

Olhei para o Doutor. Ele anotou alguma coisa. Provavelmente uma proposta de contratação de Juvenal como assistente.

Na televisão, reapareceu Kássio com Ká.

– Veja esse homem, Juvenal. Preside a Justiça Eleitoral e enfrenta a raiva da própria patroa pela depravação de frequentar, com todo mundo pelado, a piscina do triplex de Vorcaro.

– Que o noticiário virou uma suruba institucional, virou.

– É a história das cinco mulheres, com tudo pago, como num dia de príncipe?

– Juvenal, com aquelas feições pouco empolgantes, a generosidade do anfitrião precisaria ser investigada como atividade filantrópica.

O Doutor ergueu uma sobrancelha. Não soube se era reprovação ou inveja da formulação.

– Mas voltemos à tragédia – continuei. – O candidato filho da milícia vende o contrato de trabalho com pagamento por hora como uma conquista da liberdade. A pessoa trabalha quando o patrão precisa, recebe conforme as horas contratadas e ainda tem de agradecer pela oportunidade de ser flexível.

– Flexível é o salário, porque o boleto continua rígido – observou Juvenal.

– Exatamente! Há risco de remuneração instável e de direitos desprotegidos, mas anunciam tudo isso como modernização. É a velha exploração com aplicativo novo! O filho da milícia até votou pelo fim da escala 6×1, depois de combatê-la. Agora, promete flexibilizar os contratos de trabalho. Votou pelo descanso com uma mão e, com a outra, já prepara o despertador do patrão!

Laranjão, o ricaço da cobertura vizinha, surgiu atrás de nós.

– Nos Estados Unidos é assim! Trabalhou, recebeu! Nada de pagar vagabundo para descansar!

– Claro – respondi. – O senhor defende a liberdade de o trabalhador escolher entre trabalhar e passar fome.

– Isso se chama meritocracia!

– Não, Laranjão. Isso se chama transformar o descanso em artigo de luxo. O sujeito vende oito horas do dia, mas o patrão quer levar também as outras dezesseis de brinde.

– Comunistas!

E retirou-se indignado, como todo milionário que descobre que o trabalhador também pretende sobreviver ao expediente.

Juvenal recolheu os copos vazios. Ri. Mas a indignação permanecia.

– Doutor, o que me atormenta não é simplesmente a mentira. É perceber que muita gente precisa dela. Prefere acreditar que está sendo libertada quando estão negociando suas próprias correntes.

O Doutor parou de escrever.

– É como se a mentira fosse uma anestesia coletiva – continuei. – A pessoa escolhe um inimigo, encontra uma explicação para tudo e passa a pertencer a uma turma. Quanto mais absurda a história, maior a fidelidade. Admitir o engano seria pedir demissão da própria identidade.

Juvenal concordou.

– E o algoritmo funciona como o pior dos garçons: só serve aquilo que o freguês já está embriagado de ouvir.

– Mas eu sinto raiva, Juvenal. E cansaço. Uma vontade de sacudir as pessoas na portaria do condomínio e perguntar se abandonaram a capacidade de pensar!

– Isso tem nome, meu Analisado. Ferida moral. O senhor vê uma injustiça, não consegue impedi-la e acaba sofrendo duas vezes: pelo que acontece e por ver gente aplaudindo.

Fiquei em silêncio.

Na mesa ao lado, estudantes discutiam as ameaças de Trump à soberania brasileira. Maria, da cozinha, palpitava. Joel, nosso veterano apontador do bicho, acompanhava tudo com a serenidade de quem já tinha seus números escolhidos.

– O problema – retomei – é que a mentira não precisa convencer todo mundo. Basta convencer gente suficiente para tornar a injustiça aceitável.

Nesse instante, o Doutor fechou o bloquinho.

Ajeitou os óculos, contemplou a televisão e pronunciou sua única sentença:

– A ferida moral nasce da injustiça que testemunhamos; a alienação, da mentira que aceitamos para não enfrentar a realidade.

Silêncio.

Maria bateu a panela. Os estudantes aplaudiram. Cássio com Cá, sempre escondido no canto, levantou os olhos do celular. Joel ergueu um dedo.

– É 13 na cabeça!

Juvenal trouxe outra rodada e concluiu:

– E o pior, meu Analisado, é que a mentira ainda sai de graça. Quem paga a conta é sempre o trabalhador.

Olhei para o Doutor.

Pela primeira vez naquela tarde, ele sorriu.

Ou sofreu um espasmo.

Com psicanalista nunca se sabe.

Publicado originalmente em Divã no Boteco – CXIII. Enviado pelo autor.

Fonte: https://horadopovo.com.br/a-verdade-nao-cabe-na-bolha/