Independência que também foi conquistada com sangue no Piauí

Foto: SINSSP –

Meses após o grito de Dom Pedro às margens do Ipiranga, piauienses enfrentaram tropas portuguesas na Batalha do Jenipapo

Quando Dom Pedro proclamou a Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo, a história do país estava apenas começando a ganhar um novo capítulo. A separação de Portugal não foi aceita imediatamente em todas as províncias, e, em diferentes regiões, a independência precisou ser defendida com armas sangue.

No Piauí, um dos episódios mais importantes dessa luta aconteceu meses depois, em 13 de março de 1823, às margens do rio Jenipapo, em Campo Maior, no Norte do estado. A batalha colocou de um lado um exército português bem armado e organizado e, do outro, piauienses e outros brasileiros que se mobilizaram para impedir a permanência do domínio português na região.

Por isso, a Batalha do Jenipapo é considerada um dos principais capítulos da luta pela consolidação da Independência do Brasil.

O famoso grito do Ipiranga marcou a ruptura política de Dom Pedro com Portugal, mas não significou que todo o território brasileiro estivesse imediatamente sob o comando do novo Império.

1788781425722.jpg
Independência ou Morte, do pintor paraibano Pedro Américo (óleo sobre tela, 1888)

No Norte e Nordestetropas portuguesas ainda mantinham posições e havia resistência à separação. Portugal tinha interesse em preservar o controle sobre essas províncias, inclusive por sua importância econômica.

Naquele período, o Piauí tinha uma economia fortemente baseada na pecuária e era importante para o abastecimento de outras regiões. A produção de gado, além do comércio de algodão e outros produtos, fazia da província uma área estratégica.

Foi nesse cenário que chegou ao Piauí o militar português João José da Cunha Fidié. Enviado para garantir os interesses da Coroa portuguesa, ele desembarcou em Oeiras, então capital da província, em agosto de 1822, pouco antes da Independência.

A presença de Fidié aumentou a tensão entre os grupos favoráveis à permanência de Portugal e aqueles que defendiam a separação.

1788781283739.jpg

Parnaíba desafia Portugal

O movimento pela independência ganhou força no Piauí ainda em 1822. Em 19 de outubro daquele ano, a Câmara de Parnaíba declarou a independência da província em relação a Portugal e reconheceu a Independência do Brasil. Entre os nomes ligados ao movimento estavam Leonardo de Carvalho Castelo Branco, Simplício Dias da Silva e Cândido de Deus e Silva.

Fidié deixou Oeiras em novembro daquele ano e marchou em direção a Parnaíba à frente de suas tropas. Quando chegou à cidade, em dezembro, encontrou os líderes do movimento já refugiados no Ceará.

A movimentação do comandante português, porém, acabou abrindo espaço para uma nova reação.

Oeiras também adere à Independência

Enquanto Fidié estava em Parnaíba, o movimento ganhou força na antiga capital do Piauí. Em 24 de janeiro de 1823, o brigadeiro Manoel de Sousa Martins, conhecido posteriormente como Visconde da Parnaíba, declarou a adesão do Piauí à Independência do Brasil.

Ao saber da decisão, Fidié decidiu retornar a Oeiras para tentar recuperar o controle português sobre a província.

Foi durante essa marcha que o caminho do exército português cruzou com a resistência brasileira em Campo Maior.

A batalha no Jenipapo

No dia 13 de março de 1823, cerca de dois mil brasileiros se mobilizaram para enfrentar as tropas de Fidié nas proximidades do rio Jenipapo. A diferença entre os dois lados era enorme.

As forças portuguesas contavam com soldados treinados, armas e artilharia. Já entre os brasileiros estavam vaqueirosagricultorescomerciantes moradores da região, muitos sem treinamento militar e armados com instrumentos de trabalho, como foices, facões e machados, além de algumas armas de fogo.

1788781841994.jpg

Mesmo em condições desfavoráveis, os piauienses partiram para o confronto. A batalha durou aproximadamente cinco horas e terminou com pesadas perdas entre os brasileiros. Estimativas históricas citadas por pesquisadores apontam cerca de 200 brasileiros mortos e mais de 500 prisioneiros, enquanto as tropas portuguesas tiveram um número muito menor de baixas.

Militarmente, os brasileiros não venceram o confronto.

Uma derrota no campo de batalha, uma vitória estratégica

O combate provocou um desgaste significativo nas tropas de Fidié. Durante a batalha, os brasileiros também conseguiram capturar parte da bagagem, armas e munições do exército português.

Diante da resistência encontrada e das condições de sua tropa, Fidié desistiu de seguir para Oeiras. Em vez disso, atravessou o rio Parnaíba e seguiu para Caxias, no Maranhão, onde pretendia reorganizar suas forças.

1788782725459.jpg
Pintura retrata a Batalha do Jenipapo / Obra de Angela Maria Santos Rego

Foi justamente esse desfecho que deu à Batalha do Jenipapo uma importância que ultrapassa o resultado imediato do confronto. Os brasileiros perderam a batalha, mas impediram que Fidié alcançasse Oeiras e retomasse o controle da capital piauiense.

Meses depois, em 31 de julho de 1823, Fidié foi cercado capturado em Caxias pelas forças que lutavam pela Independência.  Com a derrota das tropas portuguesas na região, a separação de Portugal ganhou força no Piauí, Maranhão e Ceará.

O Piauí na construção de um Brasil independente

A Batalha do Jenipapo ajuda a desconstruir a ideia de que a Independência do Brasil foi definida apenas no episódio protagonizado por Dom Pedro em São Paulo.

O 7 de Setembro de 1822 foi o marco da proclamação da Independência, mas a consolidação dessa ruptura aconteceu de maneira diferente em cada região do país.

No Piauí, homens e mulheres enfrentaram um exército português meses depois do grito do Ipiranga. Muitos morreram sem sequer ter seus nomes registrados pela história.

É por isso que o Jenipapo é lembrado como uma vitória estratégica da causa da Independência, apesar da derrota militar sofrida pelos brasileiros naquele 13 de março.

A importância do episódio é tamanha que a data da batalha, 13 de março, foi incorporada à bandeira do Piauí em 2005, como forma de reconhecer o papel do confronto na história do estado e do Brasil.