As empresas brasileiras pesquisadas pretendem ampliar os investimentos em inteligência artificial (IA), mesmo diante das dificuldades para transformar a tecnologia em resultados financeiros consistentes. Segundo levantamento da Bain & Company, 98% das organizações planejam aumentar seus orçamentos para IA no próximo ciclo, embora apenas cerca de 40% tenham conseguido levar ao menos um caso de uso ao estágio escalado.
O contraste ocorre em um mercado no qual a adoção já é ampla. A pesquisa, realizada em julho de 2026 com 140 empresas brasileiras, aponta que 95% utilizam IA em algum estágio, percentual 21 pontos percentuais acima do registrado em 2024. O indicador, porém, inclui desde experimentações e projetos-piloto até aplicações incorporadas às operações.
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Em entrevista ao IT Forum, o sócio e líder de Data & AI da Bain & Company na América do Sul, Lucas Brossi, observa que a disposição para investir pode avançar mais rapidamente do que a capacidade das organizações de transformar a tecnologia em valor para o negócio.
“O entusiasmo com a tecnologia e com os primeiros resultados pode levar as empresas a ampliar os investimentos antes de desenvolver a capacidade necessária para executar a transformação. Integrar sistemas, preparar equipes e mudar processos exige tempo e esforço”, afirma.
A pesquisa também mostra que 62% das companhias relatam impacto financeiro direto decorrente de iniciativas de IA. Esse percentual não significa, entretanto, que todas tenham conseguido escalar suas aplicações. Enquanto o indicador de aproximadamente 40% mede a existência de ao menos um caso de uso escalado e gerando valor, o de 62% considera os resultados financeiros reportados pelas organizações, independentemente do estágio de implantação.
A distinção evidencia um dos desafios enfrentados pelas lideranças de tecnologia: obter benefícios com aplicações pontuais não significa necessariamente que a empresa esteja preparada para expandi-las de maneira sustentável.
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Produtividade não garante retorno financeiro
Entre as empresas que identificaram impacto financeiro, a redução de custos aparece com maior frequência, acompanhada por ganhos de receita e combinações dos dois efeitos. O levantamento, entretanto, não permite estabelecer uma taxa média de retorno sobre o investimento ou comparar a magnitude dos benefícios entre as organizações.
A ausência de uma referência única de retorno ganha relevância diante do otimismo dos executivos. Ao todo, 91% das empresas afirmam que suas iniciativas de IA atenderam ou superaram as expectativas, com índices médios de aprovação de 93% nas aplicações administrativas e 89% nas comerciais.
Para Brossi, a satisfação com os projetos não deve ser confundida com a comprovação de resultados financeiros. A mensuração exige considerar o desempenho anterior à implantação, os benefícios alcançados e os custos associados à integração, à operação e à revisão humana.
O desafio aparece especialmente nos projetos voltados à produtividade dos profissionais, principal motivação para a adoção de IA entre 56% das empresas pesquisadas. Embora a tecnologia possa reduzir o tempo necessário para executar tarefas, essa economia não se converte automaticamente em receita adicional ou diminuição de despesas.
O executivo explica que as organizações precisam definir como aproveitar a capacidade liberada, seja para ampliar o volume de trabalho, melhorar a qualidade das entregas ou reorganizar atividades.
“O diferencial está na capacidade de transformar iniciativas isoladas em uma prioridade concreta de negócio, concentrando recursos nos processos com maior potencial de impacto”, afirma Brossi.
Além da produtividade, o aumento de vendas, citado por 32% das empresas, e a melhoria da eficiência em processos não relacionados diretamente ao trabalho das equipes, mencionada por 24%, estão entre os principais fatores que impulsionam os investimentos.
Na avaliação do sócio da Bain, concentrar recursos em problemas relevantes, estabelecer metas e acompanhar indicadores são condições necessárias para evitar que o orçamento cresça sem uma evolução correspondente nos resultados.
IA avança nas operações e perde concentração nos chatbots
O levantamento também identifica mudanças na maneira como as empresas brasileiras utilizam IA. As interfaces tradicionais de linguagem natural, como chatbots, registraram queda de 11 pontos percentuais em relação a 2025, enquanto aplicações ligadas às operações e aos processos corporativos ganharam espaço.
Nas áreas administrativas, a tecnologia da informação apresentou o maior avanço, de 25 pontos percentuais, seguida por operações, com crescimento de 23 pontos, e atendimento ao cliente, com 16 pontos. O uso da tecnologia no desenvolvimento de software permaneceu estável.
A incorporação de IA a produtos existentes avançou sete pontos percentuais, enquanto as aplicações em operações de vendas cresceram quatro pontos. Já o uso em atividades analíticas e intelectuais, como elaboração de relatórios, pesquisas e análises de dados, aumentou 14 pontos percentuais.
Os movimentos sugerem que a adoção começa a ultrapassar as ferramentas individuais e a alcançar atividades diretamente relacionadas ao funcionamento das empresas. Isso, porém, não significa que os chatbots estejam sendo abandonados.
“O potencial de transformação aumenta quando essas aplicações passam a funcionar de forma conectada, apoiando o processo completo. A mudança observada no levantamento indica essa direção, embora a queda na participação dos chatbots não signifique, por si só, abandono do formato ou perda de eficácia”, explica Brossi.
A integração entre diferentes aplicações também amplia a complexidade dos projetos. Uma ferramenta que funciona de maneira isolada pode enfrentar dificuldades adicionais quando precisa acessar informações de outros departamentos, seguir regras internas e operar em conjunto com sistemas corporativos.
Dados e segurança limitam a expansão
A capacidade de integrar informações aparece entre os desafios para transformar aplicações pontuais em soluções utilizadas em maior escala.
Segundo a Bain, 29% das empresas pesquisadas apontam preocupações com segurança e privacidade de dados como obstáculos à adoção de IA. A falta de conhecimento especializado é mencionada por 28%, enquanto 22% identificam a baixa maturidade dos dados corporativos como uma barreira.
Embora a importância de cada fator varie conforme a organização, Brossi destaca que a qualidade e a integração das informações ganham peso quando as aplicações passam da experimentação para a operação.
Nesse estágio, não basta que a ferramenta execute determinada atividade. Ela também precisa trabalhar com dados confiáveis, compreender o contexto do negócio e respeitar regras que, em muitos casos, ainda dependem do conhecimento dos próprios profissionais.
A recomendação do executivo é que as empresas desenvolvam as condições necessárias para cada processo prioritário, em vez de aguardar uma infraestrutura considerada perfeita antes de iniciar a transformação.
“Nossa recomendação é começar por processos prioritários e resolver as fundações necessárias para colocá-los em operação, avançando progressivamente. Esperar uma infraestrutura perfeita pode atrasar a captura de valor”, afirma.
A abordagem exige controles, validação e responsáveis definidos para acompanhar o funcionamento das aplicações. Também pressupõe que os investimentos contemplem não apenas a contratação de ferramentas, mas a preparação das equipes e a revisão dos processos que receberão a tecnologia.
A expansão dos investimentos em IA também está modificando a estrutura de liderança dos projetos. Atualmente, 62% dos programas são conduzidos diretamente pelo presidente-executivo (CEO, na sigla em inglês) ou por executivos que se reportam a ele, segundo o levantamento.
O percentual acompanha a crescente importância da tecnologia nas decisões corporativas. Entre as empresas pesquisadas, 86% já colocam IA entre suas cinco principais prioridades estratégicas, ante 67% em 2025.
Para o diretor de tecnologia da informação (CIO, na sigla em inglês), a participação mais direta da alta administração representa uma ampliação das responsabilidades. Além de garantir o funcionamento das plataformas e a segurança dos sistemas, o executivo de tecnologia precisa conectar as decisões técnicas aos objetivos financeiros e operacionais da organização.
“Esse movimento amplia a importância do CIO como parceiro na transformação. Cabe a ele conectar as prioridades de negócio às decisões sobre arquitetura, dados, plataformas, integração e segurança. As áreas de negócio, por sua vez, precisam assumir a mudança dos processos e a captura dos benefícios”, afirma Brossi.
A divisão de responsabilidades torna-se especialmente importante em projetos que atravessam diferentes departamentos. Enquanto a área de tecnologia responde por aspectos como infraestrutura e integração, as unidades de negócio precisam participar da definição de prioridades e assumir os resultados esperados.
Para o sócio da Bain, a governança deve estabelecer quem toma as decisões, quem executa as iniciativas e quem responde pelos benefícios obtidos.
Com a adoção de IA disseminada entre as empresas pesquisadas, a tendência é que os indicadores de maturidade ganhem importância em 2027. Mais do que verificar quantas organizações utilizam a tecnologia, o desafio será identificar quais conseguiram incorporá-la aos processos relevantes e manter resultados mensuráveis ao longo do tempo.
“Ter ao menos uma aplicação implantada é um avanço, mas a transformação exige disseminar essa capacidade pela organização. Incorporar dados proprietários e conhecimento interno aos processos seguirá sendo importante para construir vantagem competitiva”, diz Brossi.
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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/empresas-investimentos-ia-retorno-financeiro/


