Aos 15 anos, Priscyla Laham usou o primeiro salário para comprar uma calça jeans da Zoomp. Uma colega de estágio no centro de processamento de dados (CPD) da Fatec destinou o dinheiro à compra de alimentos para a família. Vindas do mesmo colégio técnico, o Camargo Aranha, em São Paulo, as duas viviam realidades distintas, uma diferença que Priscyla percebeu ao ouvir a amiga: “Com o meu primeiro salário, eu fiz a feira para a minha mãe”. A lembrança daquele dia permanece com ela. “Aquilo me deu uma ordem de grandeza”, conta.
Filha de uma família de classe média, aluna de escola pública e criada por pais que moraram de aluguel até ela completar 17 anos, Priscyla encontrou no estágio uma oportunidade de conquistar autonomia. Queria decidir a própria vida, mesmo nas pequenas escolhas, como comprar um hambúrguer sem pedir dinheiro em casa. Nunca mais parou. Hoje presidente da Microsoft Brasil e uma das 35 mulheres de destaque da tecnologia segundo o IT Forum Mulheres, iniciativa do IT Forum Inteligência, ela reconhece naquele estágio a origem do que veio depois: a tecnologia, a convivência com pessoas de realidades diferentes e o desejo de ampliar sua atuação e assumir novas responsabilidades. “Muitas vezes o que você é hoje é o que sonhava com 15 anos”, lembra.
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Em janeiro de 2017, Priscyla tornou explícito seu objetivo de concorrer à presidência da Microsoft no Brasil. A companhia, onde ingressara em 2000 e construíra uma carreira de 15 anos, buscava trazê-la de volta desde sua saída para a Meta. Ao aceitar o retorno, ela deixou claro que desejava uma oportunidade de disputar o cargo. “Não é que eu não estivesse com medo de que não desse certo. Na minha cabeça, tinha mais chance de não chegar do que de chegar”, lembra. “Mas, se eu tinha uma chance de conseguir algum sponsorship, era naquela hora.”
Tornar o objetivo conhecido também significava lidar com a exposição, com as expectativas e com a possibilidade de não alcançá-lo. Segundo a executiva, sua trajetória exigiria construir um caminho pouco usual na subsidiária brasileira: chegar à presidência por meio de uma promoção interna. Paula Bellizia, por exemplo, já havia trabalhado na Microsoft, mas assumiu o cargo após comandar a Apple no País. Priscyla manteve seu objetivo e reafirmava a disposição de se preparar a quem a apoiava.
Oito anos, quatro cadeiras
A nomeação para a presidência da Microsoft Brasil veio em janeiro de 2025. Os oito anos entre o retorno e a chegada ao cargo foram dedicados à construção de experiências em diferentes áreas e mercados. O pedido inicial veio acompanhado de um segundo. “Entendo que promessas não existem, mas, se vocês veem a chance de eu estar nessa cadeira, eu quero construir os passos e quero ajuda”, dizia aos superiores.
O primeiro passo era ampliar sua experiência no negócio. Ela havia retornado para uma posição na área de consumo, que cuidava de Xbox, computadores e varejo, e entendia que a atuação no segmento empresarial seria importante para se preparar para a presidência.
Em 2019, mesmo ano em que Tania Cosentino assumiu a presidência da subsidiária, Priscyla buscou uma oportunidade na área de pequenas e médias empresas. Queria aprofundar seus conhecimentos sobre nuvem, segmento em que ainda não havia atuado diretamente. Quando foi gerente de produto de Windows, o negócio estava concentrado em licenças e servidores instalados nas empresas. Depois vieram a liderança do ecossistema de parceiros para a América Latina e, em 2023, a vice-presidência de parcerias com fornecedores independentes de software (ISVs) para as Américas, nos Estados Unidos. A cada convite, avaliava como a experiência contribuiria para seu objetivo de carreira e quais aprendizados a aproximariam da posição de country manager.
Ao longo desse percurso, Priscyla aprendeu que o apoio à carreira precisava ir além de um único patrocinador. “Às vezes, as pessoas entendem sponsorship como ter alguém que reconhece sua competência e está disposto a defendê-las”, diz. As mudanças na liderança exigiam construir novas relações e manter seu objetivo conhecido. César Cernuda, responsável por seu retorno, e Paula Bellizia deixaram a companhia. A cada novo superior, ela reafirmava sua intenção de chegar à presidência.
Rodrigo Kede Lima, que a contratou para liderar a área de parceiros sem conhecê-la pessoalmente, respondeu: “Eu sei. Isso te prepara bem”. Já Deb Cupp, então à frente das Américas, questionou por que ela deixaria um negócio quatro vezes maior que o brasileiro para retornar ao País. Priscyla explicou que desejava liderar a Microsoft no Brasil e contribuir para tornar o País mais competitivo por meio da tecnologia.
Hoje, ela reconhece o papel dessas experiências e lideranças na preparação para o cargo. “A verdade é que eles me prepararam”, afirma. A trajetória também lhe ensinou a conciliar ambição e preparo com a compreensão de que o resultado não está garantido.
Terceira mulher a presidir a Microsoft Brasil, Priscyla defende que diversidade é responsabilidade de todos, homens incluídos. A companhia acompanha internamente indicadores de participação feminina e incorpora o tema às discussões de desempenho dos gestores. As conversas incluem o número de mulheres promovidas, sua presença em posições de liderança e a participação em programas de desenvolvimento.
Questionada se a IA pode dar mais protagonismo às mulheres, a executiva é cautelosa e não considera o gênero, isoladamente, um fator decisivo. Ela menciona uma leitura sobre maior ceticismo feminino em relação à tecnologia, sem apresentar o dado como conclusivo.
Diferenças na adoção também aparecem em pesquisas. Uma análise de pesquisadores de Harvard, Berkeley e Stanford, que reuniu 18 estudos com mais de 140 mil pessoas, identificou uma chance cerca de 20% menor de uso de IA generativa entre mulheres, diferença que persiste mesmo quando o acesso é igual.
A diferença que Priscyla percebeu aos 15 anos, entre a calça e a feira, reaparece no discurso da presidente em outra proporção. “A Microsoft tem uma preocupação grande de não aumentar o abismo de diferenças entre as pessoas. A IA pode ser um bom habilitador para diminuir a diferença, mas também pode aumentar muito”, afirma.
Esse compromisso se traduz em iniciativas como o ConectAI, programa de letramento e capacitação lançado em 2024 junto com o investimento de R$ 14,7 bilhões em infraestrutura de nuvem e IA no País. A meta é capacitar 5 milhões de brasileiros até 2027. Segundo Priscyla, o programa já alcançou 4,2 milhões de pessoas, e a expectativa é atingir a meta em janeiro de 2027.
A estratégia de formação, explica, tem três frentes. A primeira reúne as certificações, que já se aproximam de 1 milhão e compõem o que chama de “elite de talentos”. A segunda amplia o acesso à capacitação, com o ConectAI, uma plataforma on-line e parceiros como a Enap, a Escola do Trabalhador 4.0 e a Gerando Falcões. A terceira envolve o treinamento da força de trabalho dos próprios clientes, em programas voltados a grandes empresas, como bancos. “Mesmo 5 milhões, para um país tão grande quanto o nosso, ainda tem espaço para fazermos mais”, afirma.
Do retorno à transformação do trabalho
No negócio, Priscyla identifica uma mudança no foco das conversas com os clientes. Se há 12 meses as perguntas se concentravam no retorno sobre o investimento (ROI) com o Copilot, hoje, segundo ela, a transformação da forma de trabalhar ocupa um espaço central nas discussões.
O desafio passa por incorporar a tecnologia aos processos e à rotina das equipes. Priscyla atribui parte desse avanço à decisão de fazer do Copilot uma plataforma multimodelo, capaz de alternar entre modelos da OpenAI e da Anthropic, automaticamente ou por escolha do cliente, sem exigir que o usuário reaprenda a ferramenta. Para a executiva, a adaptação das pessoas e a definição dos casos de uso são aspectos centrais dessa transição. “Imagina mudar de interface a cada seis meses porque apareceu um modelo novo”, questiona.
A governança também ganhou espaço na conversa. Segundo Priscyla, os bancos estão entre os setores que lideram essa demanda e passaram a avançar mais rapidamente com o Agent 365, que permite controlar agentes criados na plataforma da Microsoft ou fora dela. A discussão técnica inclui ainda a camada que a companhia chama de Microsoft IQ, desenhada para conectar os dados do negócio, onde quer que estejam, ao conhecimento da força de trabalho.
Com o ano fiscal iniciado em julho, a agenda dos próximos meses combina governança, segurança e velocidade. As prioridades incluem ampliar a disponibilidade de produtos, concluir etapas de testes e encurtar o caminho entre a experimentação e o uso em produção.
Parte das novidades deve aparecer no Ignite, evento anual da companhia que acontece em novembro, nos Estados Unidos. Outra frente passa pela Microsoft Frontier Company, unidade global anunciada em julho, com US$ 2,5 bilhões e 6 mil profissionais para atuar junto aos clientes, sob o comando de Rodrigo Kede Lima, o mesmo executivo que anos atrás ouviu o objetivo de carreira de Priscyla.
No Brasil, a companhia estruturou uma iniciativa local menor, mas com a mesma proposta de atuação junto às empresas. “Durante oito semanas ajudamos a sair do zero, cocriando com as empresas”, descreve. O objetivo é acelerar o desenvolvimento de soluções e sua entrada em produção.
Quando a conversa volta à carreira, o conselho de Priscyla para as mulheres, e para qualquer profissional de tecnologia, é perder o medo de dizer o que não sabe. “Quase ninguém sabe tudo nesse momento. E as pessoas que dizem que sabem qual é o futuro não estão sendo absolutamente transparentes”, afirma, evocando a máxima de Satya Nadella, presidente global da Microsoft, sobre trocar a organização do “sabe-tudo” pela do “aprende-tudo”.
De uma viagem recente à China, trouxe exemplos de oportunidades profissionais associadas à evolução tecnológica, como a atuação de pilotos de drones, mencionada durante uma visita à DJI. “Não tem como parar a onda. É preciso entrar nela e encontrar a forma de surfar.”
Coragem, porém, não dispensa critério. Na véspera da entrevista, ela havia conhecido um agente interno que analisa indicadores e devolve um diagnóstico pronto. Reconheceu o potencial da ferramenta, mas quis preservar sua própria análise antes de consultar a avaliação da IA. “Quero primeiro olhar a tabela dos meus KPIs e ter o meu assessment. Depois vou ficar muito feliz de ter o da IA”, diz. “Será que eu quero automatizar a minha opinião?”
Para ela, o profissional que atua nessa fronteira precisa distinguir três situações: o que pode delegar totalmente à IA, o que usa como ponto de partida e o que utiliza para conferir uma análise que já fez.
A menina que foi trabalhar aos 15 anos para poder decidir as próprias coisas hoje pede a quem a ouve que faça o mesmo diante da máquina. “Escolha. Eu sei que não é fácil”, finaliza.
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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/it-forum-mulheres-priscyla-laham-planejou-presidencia-microsoft/


