Nesta terça-feira (6), a Futurecom discutiu os obstáculos que o Brasil ainda precisa superar para avançar na inteligência artificial (IA) física, com destaque para o baixo envolvimento da robótica e a falta de soberania sobre dados industriais. O encontro reuniu representantes do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo (Senai SP), da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), da Ford América do Sul e da Associação Brasileira da Indústria de Automação (ABINC) no painel Physical AI: IA no Mundo Físico: Robótica, Visão Computacional e Manufatura Inteligente.
O prognóstico sobre o avanço tecnológico do País indica que a robótica está em apenas 0,38% do parque industrial brasileiro, segundo dados apresentados na sessão. Para os participantes, superar esse índice depende menos de importar infraestrutura e mais de higienização e governança dos dados gerados pelas próprias operações.
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Para Isabela Gaya, analista de inovação e produtividade da ABDI, a soberania tecnológica é ponto de partida do debate. “Quando falamos de inteligência artificial, também falamos de capacidade computacional, dados, cloud. Infelizmente, não temos soberania tecnológica para isso, mas isso não significa que não precisamos ter estratégia”, declarou.
Mauricio Finotti, CEO da I-Sensi e parte do comitê de Indústria Aberta da ABINC, levou o argumento para o chão de fábrica e defendeu que a soberania passa pela capacidade de processar informação localmente. “Como treinar uma metodologia de manutenção preditiva ou prescritiva sem um dado correto? Importa-se um robô que foi capacitado para uma fábrica com temperatura e projeto europeu; como isso funciona? Precisamos de dados úteis para treinar um machine learning brasileiro. Em vez de importar modelo, é uma importação de alucinação. Soberania é isso, é saber como criar e tratar essa informação internamente”, contou.
Isabela citou o modelo chinês como referência de governança integrada. “O que sempre se escuta falar na China é sobre chave da IA física ser um bom plano de governança, muito bem estruturado, que já contempla o desenvolvimento da industrial”, observou. Para a executiva, a corrida tecnológica tem implicações geopolíticas diretas. “Essa é uma corrida que define a geopolítica mundial. Os países que estão cada vez mais ganhando soberania com essa tecnologia são os que vão ditar os próximos passos da economia global”, constatou.
Dados como ponto de partida
Marcelo Piva, diretor de Planejamento de Materiais da Ford América do Sul, afirmou que o pré-requisito para a IA física é a mesma base de dados bem estruturada defendida pelos demais painelistas. “Quando se organiza os dados corretamente, se torna possível tirar uma conclusão e transformar em informação útil, depois dessa estruturação que conseguimos dar o salto para a IA física”, explicou.
Finotti reforçou a dependência da tecnologia em relação à qualidade da informação coletada. “A IA física é a vertente da IA mais dependente de dados. Como programar um robô para uma atividade sem ter dados bem cuidados para construir essa inteligência? Isso é construído pela informação”, afirmou.
Segundo Finotti, o planejamento de dados precisa acontecer antes da aquisição do equipamento. “Ao comprar um equipamento novo, já se prevê qual dado aquele equipamento vai precisar, já se planeja o protocolo, já se planeja a organização. Em qualquer projeto, considere que isso vai gerar dados; tenha protocolos padronizados desde o início”, disse.
Da estratégia à fábrica
Piva ainda descreveu como a montadora está integrando a IA física à operação fabril. “Um dos pilares da Ford é aplicar a inteligência artificial em toda a estrutura. O que está entrando de IA física vamos casar com os dados de eficiência e de controle, com análises automatizadas. O objetivo é disponibilizar cada vez mais tempo para produção”, indicou.
O executivo reconfigurou a lógica de retorno sobre investimento nesse contexto. “O retorno de investimento não é o único peso da decisão. As decisões ligadas à IA estão mais associadas a quanto de disponibilidade se terá daquela máquina. O importante é manter a fábrica rodando”, reforçou.
Isabela, por sua vez, identificou os principais entraves à adoção industrial. “As dificuldades de implantação estão ligadas a custos, cultura e segurança. As empresas precisam ter modelos e padronização para conseguir avançar. O principal ator dessa implementação é a governança; temos o Plano Brasileiro de IA; precisamos discutir cada vez mais essa governança, essa soberania, esse ecossistema de regulamentação integrado”, observou.
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Ela também reconheceu que o país já entrou na disputa, ainda que sem maturidade. “Não podemos falar que estamos tão atrasados, pois sabemos a importância disso; estamos trabalhando, buscando entender, buscando desenvolver regulamentação. Ainda falta muita maturidade, mas já começamos a entrar na corrida”, afirmou.
Para Piva, a estratégia exige comprometimento em todos os níveis hierárquicos. “Na estratégia da Ford hoje, o uso da IA é inegociável. A direção tem de vir de cima, o evento tem que vir de cima, o uso precisa vir de cima; é preciso mover a empresa inteira, a indústria como um todo”, encerrou.
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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/soberania-de-dados-ia-fisica-futurecom/


