A Copa do Mundo de 2026 mal começou e já está produzindo algo mais revelador do que qualquer partida: o colapso da narrativa segundo a qual os Estados Unidos seriam o grande modelo de liberdade, tolerância e democracia que o resto do planeta deveria admirar e imitar.
Durante décadas, a mídia brasileira ajudou a construir essa fantasia. Os EUA apareceram como referência civilizatória. A chegada da Copa de 2026, porém, está expondo uma realidade bem diferente.
O contraste ficou evidente em um vídeo gravado na Times Square pelo jornalista André Rizek, do Sportv. Ao comparar a Copa de 2014 com a atual edição, sediada majoritariamente nos Estados Unidos, ele classificou o Brasil como o “Bananão” que teria se submetido aos interesses da FIFA.
A declaração sintetiza um fenômeno recorrente: a tendência de tratar qualquer demonstração de força dos Estados Unidos como virtude, mesmo quando essa força assume formas autoritárias.
🚨COPA DO MUNDO:
André Rizek, faz duras críticas a FIFA antes mesmo da bola rolar. pic.twitter.com/NCeAP9fH71
— Vozes do Brasil (@vozesdobrasill) June 10, 2026
Os próprios enviados da Globo aos EUA parecem esbarrar diariamente na realidade que contradiz esse discurso.
Em transmissões feitas das ruas de Nova York, comentaristas demonstraram surpresa ao constatar que a Copa do Mundo simplesmente não ocupa o centro das atenções dos americanos. O assunto dominante era outro: os Knicks e os playoffs da NBA.
“Nada de Copa do Mundo em Nova York?”, perguntavam, observando o movimento da cidade.
A perplexidade é reveladora. O país que receberá 78 dos 104 jogos do torneio continua enxergando o futebol como um espetáculo periférico. Os Estados Unidos querem sediar a Copa, controlar a Copa e lucrar com a Copa — mas não necessariamente amam o futebol.
A impressão que fica é a de que o mundo foi convidado para uma festa cujo anfitrião não tem grande interesse pelos convidados.
Nada de Copa do Mundo em Nova York? Os Knicks estão no coração pic.twitter.com/6oOuErC3aw
— ge (@geglobo) June 11, 2026
Mas o problema vai muito além do desinteresse esportivo.
A Copa de 2026 está sendo disputada sob a sombra da política migratória de Donald Trump, da escalada de tensões internacionais e de medidas que jamais seriam aceitas sem escândalo se estivessem sendo adotadas por países tradicionalmente tratados com desconfiança pelo Ocidente.
A nova orientação das autoridades americanas para criadores de conteúdo estrangeiros é um exemplo eloquente. Influenciadores, youtubers, streamers e produtores independentes foram alertados de que produzir conteúdo profissional utilizando visto de turista pode resultar em problemas migratórios.
A medida representa uma forma explícita de controle sobre quem pode ou não trabalhar durante a cobertura do evento.
Enquanto isso, atletas, árbitros, jornalistas e torcedores de determinados países enfrentam obstáculos que transformaram a Copa em um espetáculo de discriminação seletiva.
Não tem 4-2-4 ou 4-3-3, Danilo ou Ibañez, Paquetá dentro ou fora. A entrevista de Infantino, pela contundência e coragem das perguntas, mas sobretudo pelo vazio das respostas, é o grande tema do dia na Copa do Mundo. pic.twitter.com/sWirjJEyfA
— Gian Oddi (@gianoddi) June 10, 2026
A seleção do Irã chegou ao torneio em meio a restrições de vistos, limitações impostas à comissão técnica e obstáculos para seus torcedores. Muitos integrantes da delegação só obtiveram autorização para entrar nos Estados Unidos nos últimos dias antes da competição.
O atacante iraquiano Aymen Hussein foi detido e interrogado durante horas ao desembarcar em Chicago. O fotógrafo oficial da delegação iraquiana teve seus equipamentos revistados e acabou impedido de entrar no país.
O episódio mais simbólico envolveu o árbitro somali Omar Artan. Considerado um dos melhores árbitros africanos e escalado pela própria FIFA para atuar na Copa, ele teve sua entrada negada pelas autoridades americanas e precisou retornar para a Somália.
Nem mesmo uma credencial oficial da FIFA foi suficiente.
O padrão parece evidente: a rigidez não é distribuída de forma igualitária. Ela recai principalmente sobre representantes de países pobres, africanos, árabes ou situados na periferia geopolítica do sistema internacional.
The Senegalese 🇸🇳 delegation gets this treatment on arrival in the USA. Full tarmac searches, shoes off, bags turned inside out like criminals.
This is straight up humiliation and a disgrace. They’d never put white boys through the same.pic.twitter.com/KULjwTsCQI
— World Cup 2026 Daily (@TotalFootball) June 8, 2026
Em qualquer outra circunstância, isso seria denunciado como discriminação.
Na Copa dos Estados Unidos, muitos preferem chamar de “segurança”.
O mais constrangedor é observar a posição da FIFA diante desse cenário.
Durante anos, a entidade exigiu mudanças legislativas, benefícios fiscais e adaptações institucionais dos países anfitriões. Em 2014, críticos acusaram o Brasil de ceder demais à organização.
Agora, diante de um governo que interfere diretamente nas condições de participação de atletas, árbitros e torcedores, a FIFA parece impotente.
Quando questionado pelo jornalista Dan Roan, da BBC, sobre o constrangimento provocado pela proximidade entre a entidade e Donald Trump, Gianni Infantino respondeu pedindo que todos “relaxassem”.
A declaração talvez tenha resumido melhor do que qualquer análise o momento atual.
A FIFA não comanda sua principal competição.
Quem dita as regras é a Casa Branca.
A Copa do Mundo de 2014 teve problemas, críticas e controvérsias. Mas transcorreu sem perseguições migratórias, sem vetos políticos a delegações estrangeiras, sem árbitros barrados em aeroportos e sem criadores de conteúdo recebendo avisos sobre o risco de exercer sua profissão.
A de 2026 entra para a história por motivos muito diferentes.
Não como a Copa da celebração global do futebol.
Mas como a Copa da vergonha — um torneio cercado por xenofobia, censura, nacionalismo e submissão institucional, enquanto parte da imprensa insiste em vender o espetáculo como mais uma demonstração da suposta superioridade americana.
A jornalista Karine Alves foi humilhada na entrada dos EUA: agentes mandaram ela levantar o cabelo na revista. O cabelo Black, símbolo de identidade e resistência, virou alvo. Isso tem nome: racismo. Silêncio não é opção. pic.twitter.com/1VeUQoDHLl
— Bancada Feminista do PSOL (@bfeministapsol) June 10, 2026
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/comeca-a-copa-do-mundo-no-pais-que-odeia-futebol-e-o-resto-do-mundo/

