A guinada de Ciro Gomes (PSDB) à direita ganhou um novo capítulo. Depois de se aproximar do bolsonarismo para construir sua candidatura ao governo do Ceará, o ex-ministro passou a flertar com Renan Santos, fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) e pré-candidato à presidência pelo partido Missão.
Questionado em entrevista sobre quem apoiará na disputa pelo Palácio do Planalto, Ciro afirmou que ainda aguarda uma definição do PSDB, após a desistência de Aécio Neves, mas citou dois nomes que considera possíveis: o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e Renan Santos.
“Estou acompanhando essa novidade que apareceu, que é o Renan Santos”, afirmou Ciro. Segundo ele, o dirigente do MBL “está falando coisas muito verdadeiras”, apesar de cometer “exageros”.
“Também, enfim, é uma possibilidade, mas nós vamos ter que fazer isso juntos”, completou, em referência à decisão que deverá ser tomada com dirigentes do PSDB e aliados como Tasso Jereissati.
Renan Santos reagiu à declaração neste domingo (19), em uma postagem no X.
“Ciro Gomes é inteligentíssimo. Fico lisonjeado e animado com sua declaração”, escreveu.
Veja vídeo:
https://x.com/renansantosmbl/status/2078672370768748634?s=48
Da centro-esquerda ao bolsonarismo
O aceno a Renan Santos simboliza o aprofundamento da mudança política de Ciro. Durante anos, o ex-governador do Ceará foi identificado com o trabalhismo e com o campo de centro-esquerda. Em 2002, após ser derrotado na eleição presidencial, declarou apoio “irrestrito e entusiástico” a Lula e, posteriormente, tornou-se ministro da Integração Nacional no primeiro governo petista.
Ciro também disputou a Presidência pelo PDT em 2018, quando ficou em terceiro lugar, e em 2022, quando terminou na quarta colocação. Depois do primeiro turno de 2022, anunciou que acompanharia a decisão do PDT de apoiar Lula contra Jair Bolsonaro.
Nos anos seguintes, porém, intensificou os ataques ao PT, deixou o PDT e retornou ao PSDB. Agora pré-candidato ao governo cearense, Ciro reuniu em torno de sua campanha aliados tucanos e integrantes do PL, partido de Bolsonaro.
Entre eles estão o deputado federal André Fernandes e seu pai, o deputado estadual Alcides Fernandes, ambos do PL. Alcides chegou a divulgar propaganda eleitoral apresentando-se como candidato ao Senado apoiado simultaneamente por Ciro e Jair Bolsonaro.
Na entrevista, Ciro buscou naturalizar essa composição. Afirmou que Alcides poderá votar em Flávio Bolsonaro, enquanto o deputado Mauro Benevides Filho, coordenador de seu programa de governo, poderá apoiar Lula.
“E está tudo certo, não tem problema nenhum”, disse.
Grupo já foi chamado de “facção” por Ciro
A aproximação com Renan também chama atenção pelo histórico de ataques de Ciro ao MBL. Durante a campanha presidencial de 2018, o então candidato do PDT chamou os integrantes do movimento de “delinquentes juvenis”.
Em outras ocasiões, classificou o grupo como uma “facção criminosa” e dirigiu ataques duros a seus integrantes. Agora, considera votar justamente em um dos fundadores e principais articuladores do movimento.
Renan Santos preside o Missão, partido criado a partir do MBL, e tenta se apresentar como uma alternativa da direita ao bolsonarismo. A legenda se define como a “direita do terceiro milênio” e tem buscado referências em grupos da ultradireita internacional.
O MBL ganhou projeção durante as mobilizações que culminaram no golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff e posteriormente apoiou medidas como as reformas trabalhista e da Previdência. Embora tenha rompido com Bolsonaro, permaneceu no campo da direita e tenta agora ocupar uma faixa própria da extrema direita com a candidatura de Renan.
O flerte expõe mais uma etapa da transformação política de Ciro. Depois de ter sido ministro de Lula, candidato presidencial pelo trabalhismo e crítico feroz do MBL e do bolsonarismo, ele agora admite apoiar Renan Santos enquanto costura, no Ceará, uma aliança com o partido da família Bolsonaro.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/ciro-gomes-apoio-renan-santos/

