Filipe Barros, “reserva” de Eduardo Bolsonaro em comissão, copiou “emenda Master” para beneficiar Vorcaro

O escândalo do Banco Master chegou à comissão da Câmara que Eduardo Bolsonaro dizia continuar controlando mesmo fora do Brasil. Filipe Barros (PL-PR), aliado do clã Bolsonaro e presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, apresentou projeto para multiplicar por quatro a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos e levou Banco Central e CVM para dentro da pauta do colegiado no período em que Daniel Vorcaro tentava salvar o Master e emplacar a venda da instituição ao BRB.

A nova frente foi revelada pela coluna de Malu Gaspar, no O Globo. Segundo a reportagem, Barros apresentou sete requerimentos, um projeto de lei e promoveu uma audiência pública entre novembro de 2024 e setembro de 2025. O conjunto de ações mirava temas sensíveis ao Banco Master, ao Banco Central, à CVM e a adversários de Vorcaro no mercado financeiro.

O caso amplia a conexão política entre o entorno de Jair Bolsonaro e o banqueiro. A Fórum vem mostrando que o escândalo Master já envolve Flávio Bolsonaro, Ciro Nogueira, Mário Frias, o filme “Dark Horse” e a tentativa de blindar Vorcaro no Congresso. Agora, a linha chega à CREDN, comissão oficialmente voltada a relações exteriores e defesa nacional.

Filipe Barros ocupou espaço deixado por Eduardo Bolsonaro

Filipe Barros assumiu a presidência da CREDN em 19 de março de 2025.  Na posse, Barros citou Eduardo Bolsonaro, que havia se licenciado da Câmara no dia anterior. Disse que o filho de Jair Bolsonaro se exilava para fugir de uma “iminente perseguição” e apresentou a comissão como uma “trincheira” em defesa da soberania.

A coluna resgatou uma fala de Eduardo nas redes sociais. Nela, o deputado licenciado dizia que não havia perdido poder sobre a CREDN porque tinha Filipe Barros como aliado no comando do colegiado.

“Para quem acha que eu não estar sentado naquela cadeira, eu perdi o poder da CREDN, negativo, tá?”, disse Eduardo Bolsonaro.

Foi justamente nessa comissão que Barros passou a tratar de assuntos que não pertencem ao núcleo tradicional de relações exteriores, mas interessavam ao embate em torno do Banco Master: regulação bancária, mercado de capitais, FGC, Banco Central, CVM e BTG Pactual.

Filipe Barros copiou o caminho da “emenda Master”

A primeira peça concreta foi o PL 4395/2024, apresentado por Filipe Barros em 14 de novembro de 2024. O projeto elevava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos por CPF ou CNPJ.

Na prática, a proposta ampliaria a rede de proteção para investidores de bancos médios e instituições com maior apetite por captação. Esse era um ponto central para o Banco Master, que cresceu oferecendo retornos acima dos grandes bancos e dependia da confiança dos clientes na garantia do FGC.

O texto de Barros tinha o mesmo teor da chamada “emenda Master”, apresentada no Senado por Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro. A Fórum mostrou que, segundo a investigação, a proposta de Ciro foi redigida por funcionários do banco e entregue ao senador a mando de Daniel Vorcaro.

A Fórum também mostrou que Ciro reapresentou a emenda mesmo depois de virar alvo da Polícia Federal na Operação Compliance Zero.

O projeto de Filipe Barros não foi votado. Ele foi retirado pelo próprio autor em fevereiro de 2026, conforme a ficha de tramitação da Câmara.

Banco Central e CVM entraram na comissão de Filipe Barros

Depois do projeto do FGC, Barros levou a agenda financeira para a CREDN. Em julho de 2025, apresentou requerimento para convidar Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, a falar sobre ataque hacker contra a empresa C&M Software, o Sistema de Pagamentos Brasileiro e o Pix.

O REQ 113/2025 foi apresentado por Barros em 3 de julho de 2025 e aprovado seis dias depois. Galípolo foi convidado, mas não compareceu.

No mesmo período, a comissão recebeu João Pedro Nascimento, então presidente da CVM. A própria CREDN informou que Nascimento compareceu após três requerimentos de Filipe Barros sobre temas tratados pela autarquia, incluindo suposto conflito de interesses e impactos geoeconômicos da aquisição de ativos estratégicos por fundos soberanos. A audiência com o presidente da CVM foi tensa. Nascimento renunciou ao comando da autarquia dez dias depois, um ano antes do fim de seu mandato.

Requerimentos miraram rivais de Vorcaro

A ofensiva de Barros também alcançou temas ligados ao BTG Pactual, visto no mercado como rival de Daniel Vorcaro antes da queda do Master. A CREDN questionou a Previc sobre eventual conflito envolvendo João Pedro Nascimento e o BTG, banco em que o irmão do então presidente da CVM trabalhava.

Em setembro de 2025, no mesmo dia em que o Banco Central rejeitou a compra do Banco Master pelo BRB, Barros apresentou novo requerimento ao regulador. O alvo eram liquidações extrajudiciais de instituições financeiras compradas pelo BTG, segundo O Globo.

A coluna afirma que os questionamentos miravam a diretoria do Banco Central que resistia à venda do Master ao BRB e defendia uma medida mais dura contra a instituição de Vorcaro.

Banco Master empurrou crise para dentro do bolsonarismo

O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A., do Banco Master de Investimento S.A., do Banco Letsbank S.A. e da Master Corretora em 18 de novembro de 2025, conforme comunicado oficial.

Desde então, o caso deixou de ser apenas uma crise bancária. Virou uma crise política para o bolsonarismo.

A Fórum mostrou que Flávio Bolsonaro confirmou ter visitado Daniel Vorcaro. Também revelou que Mário Frias agradeceu Vorcaro em áudio pelo apoio ao filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro.

A Fórum ainda mostrou que Vorcaro teria bancado praticamente todo o filme sobre Bolsonaro. O avanço sobre Filipe Barros adiciona uma nova peça ao tabuleiro: a atuação parlamentar, dentro de uma comissão comandada por um aliado que Eduardo Bolsonaro dizia manter sob influência.

O que diz Filipe Barros

Filipe Barros nega irregularidades. Ao O Globo, o deputado afirmou que nunca recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro, disse que não discutiu as iniciativas com Flávio ou Eduardo Bolsonaro e alegou ter interesse em regulação do mercado financeiro e de capitais.

Barros também defendeu que a CREDN trate de temas econômicos. Segundo o deputado, soberania nacional e soberania econômica não podem ser dissociadas.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/filipe-barros-banco-master/