O xadrez político de Brasília pode estar perto de protagonizar um lance de tirar o fôlego nos próximos dias. A reportagem da Fórum apurou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está muito próximo de reencaminhar ao Senado Federal a indicação do atual Advogado-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.
A movimentação representa uma espécie de contraofensiva de proporções históricas e ocorre em face dos desdobramentos avassaladores do chamado caso Master. O cenário que antes parecia de terra arrasada para o governo, no que diz respeito ao trato com o Congresso, transformou-se no combustível de que Lula precisava para impor uma derrota aos seus adversários, após avaliar que a correlação de forças mudou completamente com a exposição do submundo do sistema financeiro e seu envolvimento com o bolsonarismo e o centrão.
Para compreender o tamanho desta virada é preciso relembrar o histórico veto ao nome de Jorge Messias ocorrido há poucas semanas. Em uma votação que chocou o meio jurídico e político, o Senado rejeitou a indicação do AGU, uma afronta direta à prerrogativa do chefe do Executivo que a Casa não cometia havia 132 anos. À época, a narrativa oficial tentou colar no governo uma derrota por falta de articulação. No entanto, a vida real dos bastidores da capital federal confirmou o que o Planalto já desconfiava: Messias foi vítima de uma operação casada.
Ficou explícito para o núcleo duro do governo que a derrubada do nome do AGU foi o resultado de um complô milimetricamente desenhado entre setores bolsonaristas, o Centrão, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e até mesmo integrantes do próprio STF. O objetivo da aliança espúria era cirúrgico: enfraquecer o governo e colocar um nome dócil na Suprema Corte que ajudasse a fortalecer a suposta “operação abafa” do caso Master nas instâncias investigativas. Messias, conhecido por seu perfil técnico e intransigente na defesa do Estado, aliado do ministro André Mendonça, era visto como uma ameaça real aos planos de blindagem do grupo.
Áudios de Flávio Bolsonaro e a mudança de cenário
Toda a engrenagem de abafamento, contudo, explodiu com a reviravolta provocada pelo vazamento dos áudios do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Nas gravações, o filho “zero um” do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) aparece exigindo a cifra astronômica de R$ 134 milhões de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para o suposto financiamento da cinebiografia Dark Horse, tendo recebido efetivamente R$ 61 milhões.
Na avaliação detalhada feita pelo presidente Lula com seus ministros políticos, agora está perfeitamente claro para toda a sociedade o que aconteceu naquela rejeição do Senado, quem operou nos bastidores e quais eram os reais interesses em enterrar essa história sinistra.
Com as digitais da extrema direita e do Centrão expostas no escândalo de corrupção do Master, a leitura do Planalto é que a rejeição a Messias envelheceu muito mal para os senadores. Lula avalia que, sob a luz dos novos fatos, a opinião pública compreenderá o reencaminhamento do nome do AGU como um ato de moralização. Mais do que isso: para os parlamentares envolvidos, vetar o nome de Jorge Messias uma segunda vez seria o equivalente a passar um recibo de culpa e confessar publicamente a tentativa de blindagem do Caso Master. O ambiente, portanto, tornou-se altamente favorável para uma volta por cima do AGU, pavimentando sua aprovação no plenário, avaliam governistas.
Duelo público com Davi Alcolumbre e o calcanhar de Aquiles no Amapá
A reencaminhamento do nome de Messias para o Senado também marca o início de um duelo público e explícito que Lula está disposto a travar com Davi Alcolumbre. O presidente da República não engoliu a petulância do senador amapaense em chefiar a rebelião que violou uma prerrogativa constitucional do mandatário do país. Lula quer “chamar Alcolumbre para a roda” em praça pública e ver se ele manterá o tom de enfrentamento e tensionamento com o Executivo diante dos novos fatos.
A posição de Alcolumbre na presidência do Senado, antes considerada inexpugnável, agora exala vulnerabilidade. O parlamentar anda igualmente enrolado nas teias do Caso Master por conta de investigações que miram a aplicação do fundo de previdência dos servidores estaduais do Amapá na instituição financeira sob suspeita. Sabendo que o adversário está com o flanco aberto, Lula decidiu ir para cima.
As apurações apontam que, por estratégia de segurança jurídica e política, Jorge Messias seguirá rigorosamente longe dos holofotes e em silêncio absoluto. Ele deve manter o recolhimento institucional até o dia 25 de junho, data em que se encerra oficialmente o seu período de férias. Até lá, o Palácio do Planalto operará a demolição controlada das resistências no Senado, preparando o terreno para que o reenvio da indicação funcione como o xeque-mate de Lula sobre o consórcio que tentou interferir na composição da Suprema Corte.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/lula-messias-stf-caso-master/

