ÁUDIO: Por 5 vezes, Motta se recusa a confirmar mensagem em que pede R$ 22 milhões a Vorcaro

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), se recusou por cinco vezes a confirmar se atuou para a liberação de um empréstimo de ao menos R$ 22 milhões do Banco Master para uma empresa de sua cunhada, Bianca Medeiros, irmã de sua mulher, Luana Motta.

A recusa ocorreu durante entrevista ao jornal Estadão, que revelou que a Polícia Federal (PF) encontrou, no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, diálogos em que Motta pede diretamente a liberação do crédito. Questionado repetidas vezes sobre o teor das mensagens, o presidente da Câmara não confirmou a informação e afirmou que a operação “está dentro da legalidade”.

Ouça o áudio:

https://x.com/eixopolitico/status/2067404921591206086?s=48

Motta se recusa a confirmar pedido a Vorcaro

Na entrevista, Motta foi questionado se tinha conhecimento do empréstimo feito pelo Master à empresa de sua cunhada e se chegou a pedir a liberação da operação ao banqueiro Daniel Vorcaro.

“Quando você precisa de um empréstimo, você procura quem? O banco, não é? E a minha cunhada, que representa os negócios do meu sogro, procurou um banco. O banco tava legal à época? Podia operar? Ela tinha um crédito para poder fazer? Então foi uma operação legal. Não tem ilegalidade de nada”, respondeu.

Questionado se havia intervindo de alguma forma, Motta repetiu: “Não tem ilegalidade de nada nisso”. Diante de nova pergunta sobre se teria atuado para liberar o crédito, respondeu: “Não, não tem ilegalidade”.

A reportagem então afirmou ter uma apuração de que Motta pediu a Vorcaro, por WhatsApp, o empréstimo para a empresa de sua cunhada, e perguntou se ele confirmava a informação. O presidente da Câmara voltou a defender a legalidade da operação, sem responder se atuou para liberar o dinheiro junto a Vorcaro.

“O empréstimo é legal. O empréstimo é legal feita por uma empresa que tem lastro. E ele tinha uma instituição que estava funcionando dentro das regras. Está dentro da legalidade”, disse.

“Eu não vou confirmar a informação”

Em seguida, Motta foi novamente questionado se pediu a Vorcaro que liberasse o empréstimo. Foi então que afirmou que não confirmaria a informação.

“Empréstimo tem critério para ser liberado, e a instituição dele estava legal. Você não vai conseguir arrancar de mim uma declaração que eu pedi, que eu não pedi. Se você tem a apuração, você publica a apuração. Eu não vou confirmar a informação. Eu não tenho obrigação de confirmar isso”, declarou.

Após essa resposta, Motta deixou a sala para conversar com a deputada Renata Abreu (Podemos-SP). Ao retornar, voltou ao assunto e concluiu: “E só para registrar, o empréstimo está sendo pago pela empresa”.

PF encontrou diálogos no celular de Daniel Vorcaro

A Polícia Federal (PF) encontrou no celular de Daniel Vorcaro diálogos com Hugo Motta nos quais o parlamentar pede a liberação de um empréstimo do Banco Master para uma empresa de sua cunhada, Bianca Medeiros.

Segundo fontes com acesso às investigações ouvidas pelo Estadão, as mensagens mostram que Motta pediu diretamente ao banqueiro a liberação do crédito. O diálogo ocorreu antes de Motta assumir a presidência da Câmara.

O empréstimo, de ao menos R$ 22 milhões, foi concedido pelo Banco Master em março de 2024. A existência da operação havia sido noticiada pela Folha de S.Paulo e está registrada em documento de uma empresa de Bianca Medeiros na Junta Comercial da Paraíba.

O valor foi usado para a compra de um terreno em João Pessoa (PB), onde está prevista a construção de um novo bairro. Bianca Medeiros foi procurada pelo Estadão, mas não se manifestou.

Viagem a Lisboa também aparece na investigação

As informações sobre a conversa entre Motta e Vorcaro são apuradas em conjunto com outras menções ao presidente da Câmara detectadas no celular do banqueiro, como o pagamento de uma viagem do deputado a Lisboa.

Em 2024, segundo a PF, Vorcaro bancou despesas de Motta e também do senador Ciro Nogueira (PP-PI) em viagem ao exterior. Nas conversas e documentos obtidos pela Polícia Federal, o banqueiro determina o pagamento de cinco diárias de “suíte jr.” no Four Seasons Hotel para Ciro e Hugo Motta.

De acordo com a PF, o custo total para cada um seria de cerca de R$ 90 mil, com base na cotação do euro da época. Motta afirmou ao Estadão que viajou de “carona” no voo de Vorcaro, a convite de Ciro Nogueira.

A PF também aponta que Vorcaro cobrou de um funcionário que garantisse privacidade total na organização de um jantar em Lisboa que contaria com a presença de Ciro Nogueira e Motta, que à época exercia apenas o cargo de deputado federal.

Possível contrapartida legislativa é analisada

A PF produziu relatórios internos sobre a relação entre Motta e Vorcaro, que estão sob análise da equipe responsável pela Operação Compliance Zero.

Os investigadores avaliam se há indícios de crimes para decidir se é necessário aprofundar a investigação em relação ao presidente da Câmara. Até o momento, não há confirmação de abertura de inquérito formal contra Motta.

Uma das linhas de apuração é se há relação de contrapartida entre o empréstimo concedido pelo Master à empresa de Bianca Medeiros e uma emenda parlamentar apresentada por Hugo Motta para obrigar seguradoras e instituições financeiras a aplicar recursos em créditos de carbono, o que beneficiaria os negócios da família de Vorcaro.

Caso essa hipótese seja confirmada, o caso passaria a um patamar jurídico distinto da simples intermediação de crédito.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/motta-dinheiro-vorcaro/