Acuado por cobranças e ataques de sua própria base política, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) transformou o tempo de liderança na Câmara dos Deputados, nesta terça-feira (14), em um palanque de agressões. Em um discurso marcado por misoginia e transfobia, o extremista tentou desviar o foco de seu isolamento na extrema direita atacando o projeto que criminaliza a misoginia e afirmando que as mulheres seriam protegidas não por políticas de Estado, mas por um “fuzil”.
A retórica do deputado utilizou os 11 minutos regimentais para atacar a primeira-dama Janja, negar a existência do feminicídio e direcionar ofensas transfóbicas à deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP). A manobra escancara a tática bolsonarista de usar a violência de gênero como cortina de fumaça para engajar as redes sociais em momentos de crise interna.
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O fuzil como política pública e a negação do feminicídio
Ao defender que armas de guerra são a solução para a proteção das mulheres, Nikolas atropela os dados científicos e a realidade da segurança pública no Brasil. Levantamentos consolidados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) comprovam sistematicamente que a presença de armas de fogo em casa é um fator que multiplica o risco de feminicídio. A arma, na prática, não defende a vítima; ela fortalece o agressor doméstico.
Durante o pronunciamento, o deputado também desqualificou o termo feminicídio e esbravejou que “misoginia é o caramba”, em uma tentativa explícita de deslegitimar o PL 896/2023 (PL da Misoginia). A proposta, que ele prometeu barrar no Plenário, visa punir a incitação ao ódio contra mulheres — um golpe direto na engrenagem de monetização da extrema direita. Para tentar justificar sua oposição, Nikolas recorreu a mentiras, afirmando que a lei prenderia adolescentes por gírias de internet e blindaria a primeira-dama, invenções que não constam no texto relatado pela deputada Tabata Amaral (PSB-SP).
Transfobia reincidente e a obsessão por Erika Hilton
O discurso de ódio não poupou a presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, deputada Erika Hilton. Faltando coragem para citar seu nome diretamente na tribuna, Nikolas referiu-se a ela com o termo “homem biológico”, repetindo a tática de negar a identidade de gênero para desumanizar adversárias políticas.
A agressão reafirma o modus operandi do bolsonarista, que consolidou seu mandato atacando a população LGBTQIA+. Foi exatamente o que ele fez em março de 2023, quando colocou uma peruca loira no Dia Internacional da Mulher para ridicularizar mulheres trans no Congresso. A postura criminosa daquele dia foi resgatada nas redes pelo próprio deputado assim que Hilton assumiu o comando da Comissão, meses atrás.
Histórico de condenações e a leniência da Câmara
O uso da transfobia como ferramenta política já rendeu diversas derrotas judiciais a Nikolas Ferreira. Em 2020, o então vereador foi condenado após ataques a Duda Salabert. Em 2022, virou alvo do Ministério Público ao expor uma adolescente trans de 14 anos no banheiro de um colégio. Mais recentemente, a Justiça mineira o condenou por racismo e transfobia contra a psicóloga Andreone Medrado.
Mesmo diante do histórico de reincidência em crimes de ódio e das duras críticas de parlamentares como Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e Maria do Rosário (PT-RS) logo após o discurso, a resposta institucional da Câmara dos Deputados segue letárgica. O presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), cedeu à pressão extremista e confirmou o adiamento da votação do PL da Misoginia para depois do recesso parlamentar.
Com a omissão da Mesa Diretora, Nikolas ganha sobrevida no algoritmo, utilizando a imunidade parlamentar e o microfone da Câmara para transformar preconceito em capital político, enquanto sua base busca oxigênio na radicalização.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/nikolas-ferreira-fuzil-misoginia/

