A estratégia do PT para recuperar a hegemonia no Rio após anos de avanço do bolsonarismo

O presidente Lula ao lado de Eduardo Paes. Foto: Divulgação

O PT trabalha para recuperar a influência eleitoral que já exerceu no Rio de Janeiro durante os governos de Lula e Dilma Rousseff. Depois de ver o estado se transformar em um dos principais redutos do bolsonarismo, a legenda aposta na reconstrução de alianças políticas, na pauta social e na aproximação com lideranças locais para tentar reverter o cenário nas eleições de 2026.

A mudança no perfil eleitoral fluminense pode ser observada em municípios como Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. A cidade foi um dos principais bastiões petistas nas eleições presidenciais de 2002 e 2006, quando Lula recebeu 86% e 81% dos votos válidos no segundo turno, respectivamente.

Nos pleitos seguintes, porém, o cenário mudou. Em 2018, Jair Bolsonaro venceu no município com 66% dos votos válidos e, em 2022, repetiu a vitória com 53%. Entre os moradores, parte dos antigos eleitores do PT afirma ter migrado para o campo bolsonarista.

O comerciante André Paulo da Silva, de 48 anos, disse que votou em Lula apenas uma vez, em 2002. “O primeiro mandato dele foi o melhor governo que houve, não tenho dúvidas. O real era valorizado. Mas a estratégia do Bolsa Família é manipuladora. Não tenho raiva do PT, tenho raiva do jeito como ele governa”, afirmou.

Natural da Paraíba e morador de Duque de Caxias, ele também criticou as políticas voltadas ao Nordeste e declarou que pretende seguir a orientação política do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Se ele tivesse feito no Nordeste o que ele diz ter feito, seria uma região de primeiro mundo e não teríamos vindo para cá”.

Sobre a eleição presidencial, acrescentou: “Em outubro votarei em quem ele falar [para votar], seja Flávio, seja Michelle.” O prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, avalia que a recuperação da força eleitoral no estado passa pela retomada da política de alianças.

Segundo ele, os melhores resultados obtidos por Lula e Dilma Rousseff no Rio ocorreram quando o partido construiu acordos com o brizolismo e, posteriormente, com o PMDB liderado pelo então governador Sérgio Cabral.

“O PT, enquanto foi um partido na década de 1980 que não fazia aliança, sempre teve 15%, 20% do eleitorado do Rio. Só passou a ter maioria depois que fez a aliança com o brizolismo, que era mais forte na área popular. Depois manteve essas alianças mais amplas com o PMDB”, afirmou Quaquá.

Na avaliação do dirigente, após a Operação Lava Jato e o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o partido perdeu espaço entre setores populares ao reduzir sua capacidade de formar alianças amplas. Quaquá também defende uma mudança na estratégia política da legenda para ampliar novamente sua base eleitoral.

“Com o impeachment da Dilma, o PT voltou a ser um partido que dialoga estritamente com o eleitorado de esquerda. Um partido que passou a ter um discurso mais identitário do que social. […] Como passou a pautar como prioridade da ação política a questão comportamental, afastou o eleitorado popular que é conservador”, declarou.

Dilma Rousseff no dia da votação de seu impeachment. Foto: Divulgação

Dentro desse plano, o partido aposta na aliança com o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), e pretende concentrar a campanha em temas ligados à economia e às políticas sociais. A legenda também acompanha o cenário político estadual, incluindo o impacto das investigações envolvendo aliados do senador Flávio Bolsonaro e as auditorias conduzidas pelo governador interino Ricardo Couto sobre a gestão de Cláudio Castro.

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que a mudança no comportamento eleitoral do Rio de Janeiro resulta de uma combinação de fatores. Entre eles estão os efeitos políticos da Operação Lava Jato, o fortalecimento do bolsonarismo, a reorganização das lideranças locais, o crescimento da influência do eleitorado evangélico e a atuação de lideranças religiosas no estado.

A cientista política Mayra Goulart afirma que a Lava Jato alterou o equilíbrio político fluminense. “O Rio sofreu política e economicamente com a Lava Jato e esse combo afetou muito a esquerda, a centro-esquerda e os políticos tradicionais, abrindo margem para a extrema-direita”, disse.

Segundo levantamento do Laboratório de Eleições, Partidos e Política Comparada (Lappcom), 70% dos vereadores eleitos pelo PL no estado em 2024 já possuíam trajetória política anterior, indicando um processo de incorporação de lideranças locais.

Para o cientista político Antônio Alckmin, o crescimento do eleitorado evangélico também influenciou esse processo. Dados do Censo 2022 do IBGE mostram que 32% da população fluminense com 10 anos ou mais se declara evangélica, percentual acima da média nacional de 26,9%.

“A entrada das lideranças evangélicas na política vai aflorar mesmo a partir de 2014 e, principalmente, em 2018. A expansão evangélica tem lideranças aqui no Rio como o bispo [Edir] Macedo, o [deputado Marcelo] Crivella e Silas Malafaia”, afirmou.

Mesmo com a estratégia de reconstrução política, dirigentes e analistas avaliam que a disputa pelo eleitorado fluminense continuará fortemente influenciada pelo cenário econômico. Ex-prefeito de Duque de Caxias e aliado de Flávio Bolsonaro, Washington Reis considera que esse será o principal fator para a eleição.

“A máquina tem muito poder para capturar voto. Tem que entregar. O povo está com custo de vida alto e com poder de compra baixo. Isso traz uma irritação ao eleitorado”, declarou.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-estrategia-do-pt-para-recuperar-a-hegemonia-no-rio-apos-anos-de-avanco-do-bolsonarismo/