O primeiro dia de trabalho de João Bortone como diretor-geral da Intel para a América Latina não foi no Brasil. Foi numa segunda-feira, na Cidade do México. Bortone desembarcou no país, visitou clientes e foi direto para um evento de varejo em uma imersão de quatro dias de reuniões corridas entre fabricantes, varejistas e a Intel. “Entrava de sala e saía de sala”, descreve ele. Reencontrou profissionais com os quais trabalhou por anos do outro lado da mesa e só depois disso pisou no escritório em São Paulo.
Apesar de pouco tempo na cadeira, Bortone fala como quem já reconheceu profundamente o terreno. “Tenho a sensação de que estou aqui há seis meses”, diz, rindo. Ele assumiu oficialmente a posição em 4 de maio, substituindo Gisselle Ruiz Lanza, que comandou a região por quatro anos passou a liderar as operações da Intel na Europa, Oriente Médio e África.
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A Intel não era desconhecida para ele. Bortone entrou na companhia pela primeira vez em 2005, trabalhando de perto com o canal na região. Nos 15 anos seguintes, no entanto, esteve em empresas parceiras, primeiro na Dell, depois na Lenovo, onde liderou o Grupo de Soluções de Infraestrutura para toda a América Latina e, sob sua gestão, o negócio mais que triplicou, levando a região ao maior market share global da companhia.
Na bagagem, além dos bons números, ele traz questionamentos. “Venho como um bom atrito, de questionar, de falar: você já olhou por aí? Já foi ver como o mercado está fazendo isso?”. O segundo traço que ele diz carregar das experiências anteriores é mais visceral do que estratégico: a fome de fechar negócios. “É o aprendizado que trago para o time: essa boa agressividade de não aceitar perder para a concorrência. Eu gosto de saber o que está acontecendo, vou na ponta e falo: dá para fazer mais, dá para ser melhor, vamos correr atrás.”
A sopa e a pimenta
Formado em ciência da computação pelo Mackenzie, com MBA pela Universidade de São Paulo (USP), Bortone descreve o desejo dos primeiros cem dias à frente da operação com uma metáfora que vem da cozinha. “É um pouco de trazer o meu estilo e aprender o estilo da equipe. É como fazer uma sopa: você vai colocando os ingredientes, entendendo o time, que já é muito bem encaixado, cada um sabe muito bem sua função. Depois é acelerar e eu sempre fui uma pessoa de bastante drive.”
Parte desse tempero veio de Gisselle Ruiz Lanza, sua antecessora, com quem passou tardes inteiras revendo a operação antes da troca de bastão. “Para mim, o mais importante são as pessoas. Processo se aprende. Ela me ajudou a entender a nova cultura da companhia, em transformação, e o potencial do time. Eu não vim para destruir nada. Vim para pegar o que já funciona e melhorar com o meu tempero”, conta ele. A generosidade da passagem, segundo ele, segue no dia a dia. Os dois ainda dividem, por exemplo, os ciclos de avaliação de desempenho dos funcionários que ele herdou sem ter acompanhado o ano inteiro. “Seria injusto avaliar alguém pelo que fez no ano com dois meses de casa. Então me sentei com ela, e semana que vem fazemos essas reuniões juntos”, conta.
Encontrar o próprio ritmo em um time que já funciona bem, no entanto, também é um exercício de calibragem. Quando comento que tive um líder que um dia me disse “você está a 100 por hora e o time está a 20, você precisa modular”, Bortone reconhece o dilema e devolve com uma imagem que, segundo ele, aprendeu observando Fórmula 1. “Um piloto entra na curva a 200 e pensa: preciso fazer 203 agora. Ele vai testando: 201 não, 203. Com a equipe é a mesma coisa. Não adianta todo mundo estar a 90 se dá para chegar a 120 nos recursos que temos. Meu papel é motivar o time a entender que o 120 dá, e comemorar quando chega lá. Chegar aos 203 e não comemorar seria um desperdício”, assinala ele.
O tabuleiro da IA
É na leitura do momento da Intel, e do mercado de inteligência artificial (IA) como um todo, que Bortone vai mais longo. “Vivemos uma corrida insana entre poucas empresas para criar a melhor proposta de IA. Mas a onda que vem agora é dez vezes maior, porque é onde essa tecnologia aterrissa de fato, nas empresas, dos computadores das pessoas, dos governos. Aí ela desce mesmo para cada um de nós, quando eu tiver meu assistente pessoal”, observa.
Ele resume a tese com uma frase. “A maior oportunidade é a IA de inferência, com agentes.” Para ele, boa parte do que já se viu de inteligência artificial ficou concentrada na etapa de aprendizado e na mão de poucas companhias com capacidade de treinar grandes modelos. A próxima fase, argumenta, dilui esse poder. “Quando falamos de inferência e agente, não necessariamente é preciso uma GPU. Uma empresa pode ter um agente de IA com uma função específica rodando em CPU. E aí que mora a oportunidade dez vezes maior, porque se tem um ambiente aberto, um ecossistema inteiro de software que pode acelerar isso, não só os chips”, observa.
O raciocínio se conecta a outra ideia que ele chama de “movimento pendular” da computação. Do mainframe centralizado para o modelo cliente-servidor na ponta, da internet de volta ao centro, e agora da nuvem de volta à borda. “A IA foi para o centro e agora está voltando para a ponta, principalmente por causa da latência. As empresas querem resposta rápida, e isso exige capacidade de processamento local. O PC com IA hoje faz coisas que há poucos anos eram impossíveis. Todo mundo vai ter um AI PC”, acredita.
Sobre a América Latina especificamente, Bortone usa a imagem de uma gangorra. “É um território vibrante, tudo menos estável, bem diferente da Europa, com PIB de 3% ao ano, mas mais parado. Eu gosto dessa dinâmica, porque ela nos obriga a buscar oportunidades.” Ele credita ao Brasil, em particular, uma vantagem estrutural pouco explorada já que mais de 80% da energia do País vem de fontes renováveis, com destaque para a eólica no Nordeste, um fator que já atrai grandes grupos investidores para infraestrutura de data center na região. A ressalva vem em seguida. O marco regulatório que trata do tema, o Redata, está em discussão no Congresso há mais de um ano sem solução. “Essa janela não vai ficar aberta para sempre. Se o Brasil perder o timing, a oportunidade não desaparece, mas pode migrar para outros países da América Latina.”
O caso de Bebedouro
Quando pergunto por um projeto recente que o tenha surpreendido, ele cita, sem hesitar, um case fechado dias antes da nossa conversa: uma solução de inteligência artificial aplicada à saúde nas Unidades Básicas de Saúde de Bebedouro, no interior de São Paulo, construída com parceiros de nuvem e hardware da Intel. “Temos praticamente todo dia algum design win desses. O papel que eu quero ter aqui é transformar isso em recorrência. Fizemos esse caso de saúde com uma cidade, agora eu quero replicar com várias. É trabalhar com o mercado para entender como escalar.”
Internamente, ele também nota o quanto a própria Intel já usa IA para acelerar processos de venda, dashboards que resumem, “em 30 segundos”, quais contas precisam de atenção e o que está acontecendo no mercado que pode afetar o negócio. “Tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que fica difícil focar. Essas ferramentas internas aceleram muito a nossa produtividade.”
Bortone reconhece que o relógio de aprendizado de um executivo novo na Intel não se mede em semanas. “Para dar a volta completa em tudo que preciso aprender, vai levar um ano, porque a empresa trabalha em ciclos anuais.” Some a isso o desafio de mapear uma organização grande e em transformação constante o resultado é uma ambição que ele resume em uma frase: quer o time cada vez mais perto do mercado, “nos parceiros, nos fabricantes, dentro dos clientes”, fechando negócio e mostrando que a Intel ajuda a desenhar o futuro.
Ao ser perguntado que mensagem deixaria para o Bortone do futuro, quando olhar para trás para este momento, ele escolhe falar de gratidão antes de ambição. “O time está fazendo um trabalho excelente. A empresa é espetacular. Só quando chegamos no marco que sonhou é que dá para falar: celebra, celebra, porque isso importa. isso eu quero aproveitar a conquista antes de seguir. E depois, sim: bola para frente, porque agora tem que honrar a posição”, finaliza ele.
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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/joao-bortone-missao-acelerar-intel-america-latina/

